O Centro do Rio recebe, pela primeira vez, o Festival Midrash de Teatro, que chega à 12ª edição entre 16 e 27 de setembro, dentro da programação da 1ª Semana de Arte do Rio. Com entrada gratuita, o evento ocupa os teatros Nelson Rodrigues, Glauce Rocha, Dulcina e Correios Lea Garcia.
Idealizado por Nilton Bonder e com curadoria do filósofo e dramaturgo Patrick Pessoa, o festival reúne 12 espetáculos entre dramas, comédias, monólogos e adaptações literárias. A programação mantém a proposta de aproximar teatro e literatura e reúne trabalhos que também incorporam música e performance.
Para Patrick, a ocupação do Centro representa um momento especial na trajetória do festival.
“Estamos realizando um sonho, o de ocupar o Centro do Rio com o Festival. O ponto de partida desta vez é o cultivo dos afetos que nos fazem assumir a alegria, o prazer existencial, os afetos que afirmam a vida e nos mobilizam”, diz o curador.
Segundo Patrick, a continuidade do projeto foi um dos motivos para o convite da Prefeitura para integrar a Semana de Arte do Rio.
"Essa é a 12ª edição do evento, que é o festival da cidade do Rio que tem mais continuidade. Por isso, a Prefeitura convidou a gente e o grupo Tá Na Rua, do Amir Haddad. Nós faremos as peças de teatro dentro da 'caixa preta', dentro dos teatros propriamente ditos, já o Tá Na Rua fará na ao ar livre".
Artistas de diferentes territórios
A programação terá peças quase diariamente durante os 12 dias de festival. A abertura fica por conta de {Fé}sta, da Cia Protagonistas, de São Paulo, formada por artistas da periferia.
"Estamos com uma programação de peças quase diária entre os dias 16 e 27 de setembro. A abertura será totalmente bombástica com destaque para {Fé}sta, espetáculo que conta com um grupo de 18 artistas da periferia de São Paulo. Artistas de teatro e circo, todos negros, com música ao vivo e cantoras fantásticas, no Tetro Nelson Rodrigues, da Caixa Cultural, na Avenida Chile".
A diversidade de territórios e de perfis dos artistas é uma das marcas da curadoria desta edição. A programação reúne coletivos e artistas de regiões como Madureira, São João de Meriti e Japeri, com trabalhos que abordam questões sociais e também apontam possibilidades de transformação.
"Teremos uma série de outros artistas de vários lugares do RJ como Madureira, São João de Meriti, Japeri, que são coletivos, na sua maioria, coletivos negros, que estão dando voz a questões sociais muito importantes, mas sempre na crença de que dá pra mudar o mundo. A gente não veio aqui só pra fazer denúncia, a gente veio aqui para propor caminhos de transformação. Essa é a principal linha de curadoria do festival esse ano".
‘Outros corpos’ no palco
Patrick também defende uma cena teatral menos concentrada na lógica dos grandes nomes e mais aberta à diversidade de artistas e públicos.
"O teatro é plural, é uma arte que não precisa de grandes recursos pra ser feita, mas você precisa de curadorias sensíveis à necessidade de trazer outros corpos para cena. E há 3 anos eu batalho lá no Midrash para termos perfis de artistas diferentes. Mais da metade dos artistas são negros, muita gente LGBT, PcD, com trabalhos que considero fantásticos".
E complementa. "Quando você coloca outros corpos em cena, você puxa outros corpos para a plateia. Porque a pessoa se sente representada e entende que o teatro é dela. E não fica essa coisa elitista do Star System, que no fundo, é bastante excludente, porque você acha que nunca vai chegar aos pés da pessoa que está ali em cena. Você precisa se ver em quem está trabalhando em cena".
Outro destaque é O Nome do Rato, de Ricardo Santos, egresso da Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, que aborda a realidade de pessoas em situação de rua a partir de um processo de investigação para a montagem.
"Vai ter uma galera da Martins Penna no festivalcomo o Ricardo Santos, que é um egresso, trabalhou lá e dirigiu várias montagens de final de formatura. Ele vai apresentar no festival o espetáculo 'O Nome do Rato', peça que ele ficou meses em trabalho de pesquisa com pessoas em situação de rua e ele dá voz a essas pessoas em cena".
A proposta se estende a outros trabalhos da programação, que colocam trabalhadores e pessoas marginalizadas socialmente no centro das narrativas.
"É uma mostra, uma curadoria que dá voz aos trabalhadores e às pessoas que são marginalizadas pela sociedade. Porque infelizmente, a gente sabe que no capitalismo tardio, os trabalhadores são marginalizados".
A presença da classe trabalhadora em cena aparece também em outros espetáculos selecionados para o festival, como Cabo Enrolado, criado e interpretado por Julio Lorosh.
Veja o que acontece com o motoboy, em 'Cabo Enrolado', que nós levamos para Curitiba. O Alessandro Martins, gestor do Teatro Firjan Sesi Centro assistiu e trouxe para uma temporada no Rio. Na história tem um porteiro que é demitido por causa das câmeras, então você tem de fato a classe trabalhadora representada em cena, por corpos da classe trabalhadora, majoritariamente negros, não por acaso".
Teatro, literatura e acesso à cultura
Além dos espetáculos, o festival terá bate-papos, leituras e oficinas abertas ao público. Todas as apresentações contarão com acessibilidade em Libras.
“O Festival mantém sua origem: democratizar a arte e o acesso à cultura. Teremos bate-papo, leituras e oficinas abertas a qualquer pessoa”, explica Nilton Bonder.
Entre os destaques da programação estão ainda dois trabalhos de Fausto Fawcett, além de E no entanto ela se move, com Márcia Rubim, e A pediatra, com Debora Lamm.
Criado a partir de uma ideia de Bonder após uma visita ao Festival d'Avignon, o Midrash mantém a proposta de promover um teatro que dialogue com o cotidiano e estimule a reflexão.
"O Festival é uma resposta natural a um movimento que começou há cerca de doze anos no Midrash. Fomos escolhidos pelo Teatro!”, diz Nilton Bonder.
Semana de Arte do Rio
Coordenada pela Secretaria Municipal de Cultura, a Semana de Arte do Rio reúne mais de 10 festivais no Centro entre 16 e 27 de setembro. A iniciativa busca ampliar a circulação de artistas e público, valorizar o patrimônio da cidade e fortalecer a economia da cultura por meio da ocupação urbana com programação artística gratuita.
Programação e sinopses:
16/09 - 19h | {Fé}sta | Cia Protagonistas (SP) – Teatro Nelson Rodrigues
Abertura do Festival. O espetáculo investiga o sentido de fé no mundo contemporâneo através de rituais cênicos, música e coletividade. A Cia Protagonistas, de SP, cria uma experiência que mistura teatro e celebração para pensar crença, dúvida e encontro.
17/09 - 19h | Prata da casa | Solo com Felipe Frazão (SP) – Teatro Glauce Rocha
Monólogo autobiográfico onde Felipe Frazão costura memórias de infância, família e Brasil. Com humor e afeto, o ator fala sobre origem, identidade e o que carregamos da nossa “prata da casa”.
18/09 - 19h | Amor de baile | Direção Reinaldo Júnior (RJ) – Teatro Nelson Rodrigues
Peça que mergulha na cultura dos bailes charme do Rio. Através de dança, música e teatro, o espetáculo aborda amor, desejo e resistência na periferia carioca, dando voz a corpos e narrativas da rua.
18/09 - 19h | Macumba verbal: 70 anos de Grande Sertão Veredas | Com Fausto Fawcett (RJ) – Teatro Glauce Rocha
Em homenagem aos 70 anos da obra de Guimarães Rosa, Fausto Fawcett cria um monólogo musical que funde sertão, misticismo e linguagem urbana. O artista costura trechos do livro com sua poética para falar de mito, linguagem e Brasil profundo.
19/09 - 19h | “Film: Face ID” | Monólogo de Fausto Fawcett sobre filme de Samuel Beckett (RJ) – Teatro Glauce Rocha
Fausto Fawcett reimagina Beckett na era digital. O monólogo fala sobre identidade, reconhecimento facial, solidão e a relação do corpo com a tecnologia. Uma reflexão sobre o que significa “ser visto” hoje.
19/09 - 19h | E no entanto, ela se move | Com Márcia Rubim (RJ) – Teatro Dulcina
Solo inspirado na frase atribuída a Galileu. Márcia Rubim dá voz a mulheres cientistas e pensadoras para falar de teimosia, ciência e da força de quem insiste em mover o mundo apesar das barreiras.
20/09 - 15h | Era uma vez um tirano (RJ) – Teatro Nelson Rodrigues
Fábula política em tom de comédia negra. O espetáculo usa bonecos e narrativa para refletir sobre poder, autoritarismo e memória, perguntando como as histórias de tiranos se repetem.
24/09 - 19h | O nome do rato | De Ricardo Santos (RJ) – Teatro Glauce Rocha
Drama urbano que acompanha personagens à margem da cidade. Com linguagem direta e poética, a peça discute violência, sobrevivência e a luta por dignidade e por um nome no mundo.
24/09 - 19h | A pediatra | Com Debora Lamm (RJ) – Teatro Dulcina
Comédia ácida sobre maternidade e julgamento. Débora Lamm vive uma médica que atende dilemas de mulheres e famílias, expondo com humor e crueldade as pressões sociais sobre o corpo e as escolhas femininas.
25/09 - 19h | Cabo enrolado | Julio Lorosh (SP) – Teatro Correios Lea Garcia
Solo performático que mistura teatro, stand-up e música. Julio Lorosh fala sobre ansiedade, caos e os “cabos” que nos conectam e nos enroscam na vida contemporânea, entre o digital e o real.
26/09 - 19h | Cabeça de porco | De Juliana França (RJ) – Teatro Glauce Rocha
A peça parte da canção dos Racionais MCs para abordar racismo, desigualdade e violência estrutural. Com narrativa forte e visceral, reflete sobre Brasil, periferia e sobrevivência.
27/09 - 18h | História | De Marcio Abreu (RJ) – Teatro Dulcina
Encerramento do Festival. Marcio Abreu, que já assinou curadoria de edições anteriores do Midrash, propõe um espetáculo sobre tempo, memória e narrativa. O que chamamos de “História” e quem tem direito de contá-la?
Serviço:
12º Festival Midrash de Teatro
Temporada: 16 a 27 de setembro de 2026
Horários: 15h, 18h e 19h (conforme a programação)
Acessibilidade: Interpretação em Libras em todas as apresentações
Classificação indicativa: Verificar programação por espetáculo
Locais: Teatro Nelson Rodrigues, Teatro Glauce Rocha, Teatro Dulcina, Teatro Correios Lea Garcia, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Entrada: Gratuita
Realização: Midrash Centro Cultural
Idealização: Nilton Bonder
Curadoria: Patrick Pessoa
Mais informações
Midrash Centro Cultural
Instagram: @midrashcultural
E-mail: divulgacao@midrash.com.br