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Como a caridade ajudou a construir o interior fluminense no século XIX — e como barões do café disputavam hospitais e asilos

Estudo revela bastidores pouco conhecidos da antiga província do Rio, onde Santas Casas, rodas de enjeitados e asilos nasceram entre ambições políticas, títulos de nobreza e o drama da pobreza no Império

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Santa Casa da Misericórdia, vista de um edifício na Avenida Churchill, com o Fórum do Rio e o mar ao fundo / Foto: Rodolfo Rique - Santa Casa da Misericórdia, vista de um edifício na Avenida Churchill, com o Fórum do Rio e o mar ao fundo / Foto: Rodolfo Rique

Há um Rio de Janeiro do século XIX que quase nunca aparece nas narrativas mais populares da história fluminense. Um Rio formado não apenas pelos salões da Corte, pelos bailes imperiais ou pelos barões do café, mas também por órfãs abandonadas, crianças deixadas em rodas de expostos, hospitais improvisados em casas alugadas, senhoras que costuravam para sobreviver e irmandades religiosas que acabaram assumindo funções que hoje seriam do Estado.

É justamente esse universo — duro, contraditório e profundamente humano — que a historiadora Gisele Sanglard resgata no estudo “Assistência na antiga província do Rio de Janeiro: contribuições para o debate acerca de sua organização (1830-1890)”, publicado na revista História, da Unesp.  

O trabalho mergulha na formação das primeiras estruturas de assistência social e hospitalar do interior fluminense, analisando experiências em Cabo Frio, Valença, Vassouras e Niterói. E revela um dado surpreendente: muitas das instituições de caridade do Rio Imperial nasceram não apenas por piedade cristã, mas também por estratégia política, desejo de prestígio social e busca de aproximação com Dom Pedro II.

A pesquisa mostra que a chamada Lei dos Municípios, de 1828, teve papel decisivo nessa transformação. A legislação obrigava as câmaras municipais a cuidarem de expostos, órfãos pobres, indigentes e vacinação, mas permitia que essas responsabilidades fossem transferidas às Casas de Caridade e Santas Casas de Misericórdia.   Na prática, isso abriu espaço para que elites locais criassem instituições beneficentes capazes de aliviar os cofres municipais — e, ao mesmo tempo, projetar seus nomes junto ao Império.

A autora observa que a abertura dessas instituições também se inseria na “sociabilidade imperial”, funcionando também como forma de “agradar ao Imperador ou agradecer a mercê desejada/recebida”. Isto, é claro, além de render o perdão dos pecados e a misericórdia divina, numa época altamente marcada por uma forte tradição católica, que construiu obras de misericórdia que ainda persistem no mundo inteiro.  Em outras palavras: fazer caridade podia render títulos de nobreza. E não era metáfora.

O estudo recupera cartas e episódios quase romanescos envolvendo grandes cafeicultores do Vale do Paraíba. Um dos casos mais impressionantes é o do fazendeiro Joaquim Ribeiro de Avellar, que foi incentivado a contribuir financeiramente para o Hospício de Alienados da Corte como forma de melhorar sua posição social diante da elite imperial. Em carta citada pela pesquisadora, seu intermediário chega a afirmar que a doação “dá valor à fortuna” e traz “consideração da sociedade”.   Poucos anos depois, ele receberia o título de barão de Capivary. Era comum o reconhecimento a quem se mostrava caridoso e apoiador das boas causas cristãs.

No Vale do Café, a filantropia virou também linguagem política. Em Vassouras, por exemplo, a criação da Santa Casa nasce diretamente ligada à visita de Dom Pedro II à cidade, em 1848. Após ser agraciado com o título de barão do Tinguá, o fazendeiro Pedro Corrêa e Castro doou 10 contos de réis para a construção de uma Casa de Caridade.   A pedra fundamental do hospital foi lançada em 2 de dezembro — aniversário do imperador — diante da população pobre da cidade, descrita pelo memorialista local como “a pobreza sofredora”.  

Já em Valença, a Santa Casa de Misericórdia foi fundada em 1838 pelo poderoso Visconde de Baependi, um dos maiores nomes da aristocracia cafeeira fluminense.   O detalhe simbólico chama atenção: a irmandade foi criada em 2 de julho, data tradicional das Misericórdias portuguesas, enquanto o hospital remetia diretamente ao aniversário de Dom Pedro II.  

Mas talvez a parte mais fascinante do estudo esteja no cotidiano dessas instituições.

A antiga Casa de Caridade de Cabo Frio, criada ainda na década de 1830, funcionava em imóvel adaptado e enfrentava dificuldades financeiras permanentes.   O hospital tinha tão poucos pacientes que, em determinado momento, um homem internado pôde permanecer acompanhado da própria esposa, que atuava informalmente como enfermeira.  

Enquanto isso, a “Roda dos Expostos” — mecanismo onde recém-nascidos eram abandonados anonimamente — tinha movimento constante. Crianças eram deixadas não apenas na cidade, mas também em freguesias distantes da atual Região dos Lagos.   Muitas vezes apareciam nas portas das casas e eram recolhidas pela instituição.

As meninas órfãs recebiam educação voltada ao trabalho doméstico: costura, lavagem, engomagem. Já os meninos eram encaminhados para aprender ofícios ou trabalhar em arsenais do Império.   O objetivo já não era apenas caridade religiosa no sentido clássico, mas também “utilidade social”, conceito que a autora identifica como marca da filantropia oitocentista.  

Niterói seguiu caminho diferente. Em vez de uma Misericórdia tradicional, a capital da província criou em 1854 o Asilo Santa Leopoldina, voltado especificamente para meninas pobres e órfãs.   A instituição tinha ligação direta com a família imperial: Dom Pedro II e Teresa Cristina eram seus protetores oficiais.  

O mais curioso é que muitas crianças internadas vinham da própria Corte, embora o Rio de Janeiro já possuísse a famosa Casa dos Expostos da antológica Santa Casa da Misericórdia da rua Santa Luzia (Centro do Rio), hoje com 444 anos.   A hipótese levantada pela pesquisa é que o asilo niteroiense oferecia algo diferente: formação prática e preparação para o mercado de trabalho, sobretudo para meninas que poderiam se tornar professoras, costureiras ou empregadas domésticas.  

Outro aspecto impressionante revelado pelo estudo é a fragilidade financeira dessas instituições. Muitas sobreviviam basicamente graças às loterias autorizadas pela província.   Em alguns casos, faltava dinheiro até para concluir paredes e telhados. Em Cabo Frio, houve relatos de roubo de pedras da construção e desabamento de estruturas.  

Mesmo assim, essas Santas Casas e Casas de Caridade acabaram formando a primeira rede de assistência organizada do interior fluminense.

A pesquisa também desmonta uma visão romantizada da assistência imperial. Os hospitais não eram universais. Escravos, por exemplo, normalmente só eram atendidos mediante pagamento de seus senhores.   Já os pobres precisavam provar oficialmente sua miséria para receber tratamento gratuito.  

No fim do século XIX, porém, essas instituições já começavam a mudar. Os hospitais cresciam, as enfermidades urbanas se sofisticavam e o envelhecimento da população aparecia nos registros médicos de Valença, com casos de arteriosclerose, doenças cardíacas e tuberculose.   O velho sistema de caridade colonial começava lentamente a dar lugar a uma estrutura mais próxima da saúde pública moderna.

Ainda assim, muito da assistência social fluminense nasceu ali: entre barões do café, irmandades religiosas, loterias provinciais, meninas órfãs aprendendo costura e crianças abandonadas em rodas de madeira.

Uma história pouco contada — e profundamente carioca e fluminense. 

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.