Início Cultura Crítica: ‘Pressão’ transforma previsão do tempo em thriller de guerra

Segunda Guerra Mundial

Crítica: ‘Pressão’ transforma previsão do tempo em thriller de guerra

Pressão acompanha o meteorologista James Stagg nas 72 horas anteriores ao Dia D e transforma mapas, cálculos e previsões climáticas em um thriller militar

Filme Pressão - Reprodução

Um amigo meu, quando “O Agente Secreto” foi lançado, questionou debochadamente se já não tínhamos “filmes de ditadura” o suficiente. Segundo ele, o tema estava batido e parecia difícil imaginar o que ainda poderia ser extraído daquele período histórico.

Bem, espero que ele não vá assistir a “Pressão”.

O novo filme de Anthony Maras (de “Hotel Mumbai”) se passa nas 72 horas que antecederam o Dia D e encontra mais um recorte específico dentro de um evento que o cinema parece ter explorado por todos os ângulos possíveis.

A Segunda Guerra Mundial talvez seja o acontecimento histórico mais revisitado pelo cinema. Temos filmes sobre batalhas, invasões, fugas, campos de concentração, espionagem, resistência, ocupação e praticamente qualquer outro aspecto imaginável do conflito. A impressão recorrente é a de que já vimos tudo. Então, aparece outro filme para provar que ainda faltava alguma coisa.

Essa saturação, inclusive, criou uma espécie curiosa de “spin-off da Segunda Guerra”. São filmes que não acompanham propriamente os combates, mas os bastidores que permitiram que eles acontecessem. “Oppenheimer” (2023) trata do desenvolvimento da bomba atômica. “O Destino de uma Nação” (2017) acompanha as decisões políticas de Churchill. “O Jogo da Imitação” (2014) transforma a quebra do código alemão em seu conflito central.

“Pressão” entra diretamente nessa categoria. O filme acompanha James Stagg (Andrew Scott, de “Fleabag”), meteorologista responsável por aconselhar o comando aliado sobre as condições climáticas para o desembarque na Normandia. Uma tempestade poderia comprometer a navegação das embarcações, impedir a atuação aérea e transformar uma das maiores operações militares da história em uma catástrofe antes mesmo de os soldados chegarem às praias.

O problema é que existe um limite bastante evidente para o grau de ação que um filme sobre meteorologistas analisando mapas consegue produzir.

E “Pressão” sabe disso.

Talvez por esse motivo, o longa se empenhe tanto em transformar previsão do tempo em thriller militar. Temos sequências de dois ou três minutos com meteorologistas correndo entre salas, fazendo ligações, comparando números e discutindo termos técnicos, enquanto uma trilha cada vez mais intensa anuncia que alguma coisa gravíssima está prestes a acontecer.

Funciona. Mas existe um risco.

Se você entrar completamente na proposta, a tensão aparece. Se conseguir quebrar por alguns segundos o efeito que direção, montagem e trilha tentam produzir e observar apenas o que efetivamente acontece em cena, tudo pode se tornar involuntariamente engraçado. Em determinado momento, percebi que estava assistindo, essencialmente, a pessoas trabalhando em algo próximo de um call center, enquanto o filme enquadrava aquela atividade com a intensidade de uma batalha.

“Pressão” lembra que guerras não são decididas apenas por soldados, generais e armamentos. Antes de milhares de homens desembarcarem na Normandia, alguém precisava descobrir se choveria.

Não há muito mais que exigir do filme. Ele apresenta um aspecto pouco lembrado da Segunda Guerra, cria tensão a partir de uma atividade que dificilmente parece cinematográfica e entretém durante suas 1h40.

Depois de “Oppenheimer”, “O Jogo da Imitação” e agora “Pressão”, resta aguardar o inevitável filme sobre os cozinheiros e a logística de suprimentos dos Aliados (pior que provavelmente ficaria bom um filme desses).

Comentário final: o desafio do filme era os cientistas, na sexta à noite, afirmarem com precisão se faria sol na segunda-feira. Vemos que a meteorologia não mudou muito nos últimos 70 anos. Se a guerra fosse no Rio de Janeiro, então...

Nota: 3/5

Leônidas Barbosa Quaresma Neto
Carioca, cinéfilo, advogado e doutorando em direito tributário