O Rio de Janeiro passa a contar com um computador quântico voltado à formação profissional e à pesquisa aplicada. Nesta terça-feira (8/9), a Firjan SENAI apresenta o Triangulum II, equipamento da SpinQ instalado no DigiTech, Centro de Referência em Tecnologia da Informação e Comunicação localizado no edifício Eco Sapucaí, na Cidade Nova.
Segundo a Firjan, o equipamento é um dos três computadores quânticos educacionais existentes no Brasil e o mais moderno do país. Desenvolvida pela SpinQ, com participação da Dobslit no projeto, a máquina permitirá que estudantes, pesquisadores, profissionais e empresas tenham contato com um hardware quântico real.
O objetivo não é substituir os computadores tradicionais nem resolver imediatamente problemas industriais em larga escala. Com apenas três qubits, o Triangulum II funciona principalmente como uma plataforma de ensino, experimentação e desenvolvimento de competências.
— A proposta da Firjan SENAI é colocar essa discussão dentro do ambiente de formação, permitindo que estudantes, profissionais, pesquisadores e empresas tenham contato com um computador quântico real — afirma Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan.
Caetano compara a experiência à utilização de um simulador de aviação.
— Ele não substitui um avião comercial nem pretende fazer isso. Mas permite que futuros pilotos aprendam, testem procedimentos e entendam fundamentos antes de chegar a equipamentos muito mais sofisticados — exemplifica.
Da pergunta da indústria ao laboratório
O avanço da computação quântica desperta o interesse de setores estratégicos como óleo e gás, energia, telecomunicações, logística, serviços financeiros, tecnologia e segurança.
Uma das possibilidades estudadas é a aplicação da tecnologia em problemas de otimização, nos quais é necessário analisar um número muito grande de variáveis e combinações possíveis.
Na operação de plataformas de petróleo em alto-mar, por exemplo, empresas precisam organizar simultaneamente rotas de helicópteros e embarcações, condições meteorológicas, consumo de combustível, disponibilidade das equipes, operações de manutenção e diferentes restrições de segurança.
— Encontrar a melhor combinação possível entre todas essas possibilidades é um problema de otimização de alta complexidade — explica Alexandre dos Reis, diretor-executivo da Firjan SESI SENAI.
Segundo ele, esse tipo de desafio ajuda a demonstrar o potencial futuro da computação quântica.
— A tecnologia pode ser aplicada a desafios de otimização, simulação e análise de grandes quantidades de possibilidades — afirma.
Isso não significa que os computadores quânticos sejam necessariamente mais rápidos do que os convencionais em qualquer atividade. São máquinas construídas para funcionar de outra maneira e que podem oferecer vantagens apenas em determinados tipos de problema.
Como funciona um computador quântico
Os computadores tradicionais armazenam e processam informações por meio de bits, representados pelos valores 0 ou 1.
Já os computadores quânticos utilizam qubits, que podem ser preparados em uma combinação dos estados 0 e 1, fenômeno conhecido como superposição. Outros princípios da física quântica, como o emaranhamento e a interferência, permitem estruturar cálculos de maneira diferente daquela utilizada pela computação convencional.
Em termos simplificados, um computador tradicional testa possibilidades de acordo com uma sequência determinada de operações. Os algoritmos quânticos procuram explorar relações entre diferentes estados para aumentar a eficiência de alguns cálculos.
— Imagine um labirinto enorme. Um computador convencional, simplificando bastante, pode testar os caminhos seguindo uma sequência por vez. Já a computação quântica utiliza propriedades da física para trabalhar com várias possibilidades conjuntas de forma que, em determinados problemas, pode permitir encontrar soluções com muito mais eficiência — compara Alexandre dos Reis.
A questão para a indústria, portanto, não é substituir os computadores atuais, mas identificar em quais problemas a computação quântica poderá oferecer vantagens e como transformar esse potencial em aplicações reais.
Equipamento funciona em temperatura ambiente
Alguns dos computadores quânticos mais avançados atualmente precisam de estruturas de refrigeração criogênica e operam em temperaturas extremamente baixas.
O Triangulum II utiliza outra tecnologia. Baseado em Ressonância Magnética Nuclear (RMN), o equipamento consegue funcionar em temperatura ambiente e pode ser instalado em um laboratório convencional.
Essa característica permite levar o hardware quântico para ambientes de ensino e pesquisa sem a necessidade da estrutura complexa exigida por máquinas maiores.
De acordo com as especificações divulgadas pela SpinQ, o sistema possui três qubits físicos e permite o desenvolvimento de algoritmos em Python, além da combinação entre programação clássica e quântica.
O equipamento pode executar algoritmos fundamentais, realizar experimentos relacionados à superposição e ao emaranhamento e introduzir conceitos ligados à otimização, ao controle de circuitos e à criptografia quântica.
O que o Rio ganha
A instalação do computador cria no estado um espaço permanente para a formação de profissionais em uma área considerada estratégica para o futuro da tecnologia.
O ganho para o Rio não está apenas na presença física do equipamento, mas na possibilidade de desenvolver conhecimento local sobre uma tecnologia com potencial para afetar setores importantes da economia fluminense, especialmente petróleo e gás, energia, logística, finanças e telecomunicações.
Governos, universidades e empresas de diferentes países já investem na formação de pessoas capazes de desenvolver algoritmos e aplicações quânticas. A tecnologia ainda enfrenta obstáculos técnicos importantes antes de alcançar uso comercial em larga escala, mas a demanda por profissionais especializados tende a crescer à medida que as máquinas evoluem.
A lógica é semelhante à observada em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e cibersegurança: antes da expansão das aplicações, é necessário formar pessoas capazes de compreender a tecnologia.
Computador integra estrutura do DigiTech
O Triangulum II passa a integrar o DigiTech, inaugurado em 2025 no Eco Sapucaí. O centro ocupa mais de 2,5 mil metros quadrados e reúne laboratórios de software, hardware e redes, arena de cibersegurança, ambiente de inteligência artificial e espaços dedicados ao desenvolvimento de sistemas.
A estrutura tem capacidade para formar mais de 9 mil profissionais por ano.
O DIÁRIO DO RIO acompanhou a instalação do centro no edifício corporativo vizinho ao Sambódromo que permaneceu praticamente vazio durante anos.
O local também recebe projetos relacionados à proteção de infraestruturas estratégicas. Em julho, a Firjan SENAI e o Exército anunciaram a criação de um polo de defesa cibernética no DigiTech, com a participação prevista de empresas e instituições de diferentes setores.
Para Luiz Césio Caetano, começar agora a preparação dos profissionais pode definir a posição do Rio quando a computação quântica alcançar aplicações mais amplas.
— Sempre que uma tecnologia chega ao mercado, quem já sabe trabalhar com ela larga na frente. Quando os computadores quânticos estiverem prontos para resolver problemas em escala, a pergunta não será apenas quem terá acesso à tecnologia. Será: quem saberá o que fazer com ela? — conclui.