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BAP comemorou saída de Plata antes do negócio melar; Flamengo busca reparação e avalia ida à FIFA

Negociação de cerca de R$ 72 milhões virou caso jurídico após clube russo recuar; rubro-negro contesta reprovação do atleta

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Gonzalo Plata -

A venda de Gonzalo Plata para o Dínamo Moscou era motivo de comemoração para Luiz Eduardo Baptista, o BAP, antes de o negócio desandar. Segundo a apuração do GE, na segunda-feira (31/08), um dia antes de o clube russo comunicar a desistência da contratação, o presidente do Flamengo celebrou a negociação. Durante uma reunião do Conselho de Administração, o dirigente teria feito uma referência ao comportamento extracampo do atacante.

BAP teria dito estar “muito feliz com a venda do Plata” e afirmado que, com a saída do jogador, o clube não precisaria mais ficar acompanhando sua rotina pela noite carioca para tentar descobrir o que ele estava fazendo e quanto estaria bebendo.

A declaração ocorreu quando a transferência ainda era tratada como encaminhada. O acordo com o Dínamo previa cerca de 10 milhões de euros (R$ 60,1 milhões) pelo atacante equatoriano. Plata chegou a viajar para a Rússia, foi recebido pelo clube e estava na etapa final do processo, mas a contratação acabou interrompida após a avaliação médica.

Flamengo quer saber se houve prejuízo na negociação

O Dínamo informou ao Flamengo que Plata não havia atendido aos parâmetros médicos exigidos pela equipe. O problema apontado pelos russos foi uma tendinite no joelho direito, lesão que havia afastado o atacante de duas partidas do Campeonato Brasileiro em julho.

A situação, porém, é contestada pelo Flamengo. O clube sustenta que o jogador vinha atuando normalmente antes da viagem e que está em condições para disputar futebol de alto rendimento. Em comunicado oficial, a diretoria afirmou que buscará as reparações cabíveis e classificou a condução do episódio pelo Dínamo como “amadorismo e irresponsabilidade”.

A partir disso, a discussão deixa de ser apenas sobre a transferência que não aconteceu. O Flamengo agora avalia se a forma como o negócio foi interrompido provocou prejuízos ao clube e ao próprio jogador e se existe base contratual para cobrar uma compensação.

O Dínamo, por sua vez, mudou a justificativa apresentada inicialmente. Em novo comunicado, o clube russo não citou especificamente os exames médicos e afirmou que decidiu não concluir as transferências de Plata e Matheus Martins, do Botafogo, por uma “série de motivos”, levando em consideração os interesses de longo prazo da equipe.

O que o Flamengo pode fazer na FIFA?

Uma das possibilidades avaliadas pelo Flamengo é levar o caso à FIFA, caso a análise jurídica dos documentos indique que há fundamento para uma disputa internacional. O primeiro passo é entender exatamente o que foi assinado entre os clubes e quais eram as condições previstas para a conclusão da transferência.

A entidade mantém o Tribunal do Futebol, responsável por julgar disputas relacionadas ao futebol internacional. Dentro dele, a Câmara de Status do Jogador tem competência para analisar determinados conflitos entre clubes vinculados a associações de países diferentes.

No caso de Plata, o Flamengo poderá reunir os documentos da negociação, os termos do acordo, os exames médicos realizados e eventuais avaliações feitas pelo próprio clube para sustentar sua posição. A discussão poderá envolver, entre outros pontos, se o Dínamo tinha respaldo contratual para desistir da operação após os exames e se a alegação médica foi suficiente para justificar o rompimento.

O objetivo do Flamengo, portanto, não seria simplesmente pedir à FIFA que obrigue o Dínamo a contratar Plata. A eventual disputa teria como foco as consequências da desistência e uma possível reparação por prejuízos, caso o clube consiga demonstrar que houve descumprimento de alguma obrigação assumida na negociação.

A legislação esportiva internacional também prevê mecanismos de mediação dentro da própria FIFA para determinados conflitos, como uma tentativa de solução negociada antes de uma decisão.

Se houver uma decisão desfavorável em uma instância da FIFA, ainda existe a possibilidade de recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), que é reconhecido pela própria FIFA como instância para analisar recursos contra decisões finais de seus órgãos jurídicos.

Ainda assim, uma eventual ida à FIFA não representa garantia de indenização para o Flamengo. O resultado dependerá principalmente dos contratos firmados entre as partes, das condições estabelecidas para a transferência e das provas apresentadas sobre os exames e a justificativa utilizada pelo Dínamo.

Casos de exames médicos já chegaram ao tribunal esportivo

A discussão não é inédita no futebol internacional. O Tribunal Arbitral do Esporte já analisou casos em que clubes desistiram de contratações ou discutiram a validade de transferências após avaliações médicas.

Em um dos processos, por exemplo, o CAS analisou uma negociação envolvendo Villarreal e Lazio na qual a conclusão da transferência estava condicionada à aprovação do jogador nos exames médicos. Em outro caso, envolvendo Gil Vicente e FK Rad, o tribunal discutiu uma transferência em que o clube comprador alegava problemas médicos, mas acabou responsabilizado por questões relacionadas à forma como conduziu a contratação.

Os precedentes mostram que uma reprovação médica, por si só, não determina automaticamente quem tem razão. O tribunal costuma considerar o conteúdo dos contratos, as condições estabelecidas entre os clubes, o momento em que os exames foram realizados e a conduta das partes na negociação.

Dínamo repete caso com Matheus Martins

O episódio envolvendo Plata ganhou ainda mais repercussão porque o Dínamo Moscou tomou decisão semelhante com Matheus Martins, do Botafogo.

O atacante também viajou para a Rússia para concluir sua transferência e acabou não sendo aprovado nos exames médicos. O Botafogo contestou o diagnóstico e colocou seu departamento médico à disposição para esclarecer a condição do jogador.

Matheus também afirmou ter ficado surpreso com a decisão. Segundo o atacante, os exames foram realizados normalmente e ele havia disputado 38 partidas na temporada, incluindo uma menos de dez dias antes da viagem. O jogador declarou ainda discordar completamente da avaliação feita pelo clube russo.

As duas negociações foram interrompidas praticamente no mesmo momento e pelo mesmo clube. A coincidência fez com que Flamengo e Botafogo passassem a avaliar medidas diante dos episódios.

No caso rubro-negro, além da negociação de aproximadamente R$ 60 milhões que deixou de ser concluída, a diretoria agora terá de decidir se levará a discussão adiante e tentará responsabilizar o Dínamo pelos possíveis prejuízos causados pela condução do negócio.

Enquanto isso, Plata retorna ao Flamengo e será reintegrado ao elenco. O jogador havia se despedido do clube antes da viagem à Rússia e chegou a ser recebido pelo Dínamo, mas voltou ao Rio após a transferência ser interrompida.

Ana Clara Silva
Carioca, jornalista e flamenguista. Nessa ordem (às vezes não).