Sempre gostei de caminhar pelo Centro do Rio admirando os prédios históricos e imaginando como era a vida cotidiana do carioca no passado. Por conta dessa curiosidade, comecei a estudar a fundo a literatura da época, pois como entender melhor a vida de alguém do que por meio da literatura?
Nesta coluna, quero resgatar algumas histórias que aconteceram no Rio Antigo, pois acredito que essa é uma excelente forma de vivermos melhor a cidade. Afinal, quando conhecemos as histórias do lugar onde vivemos, também conhecemos mais a nós mesmos. Então, nas próximas linhas, não espero nada menos do que fazer você se reconectar com o seu passado.
Comecemos por uma história que ficou marcada como “as aposentadorias”. Mas calma: não é a aposentadoria que conhecemos hoje, com o INSS e tudo o mais. Trata-se de algo tão absurdo quanto interessante que aconteceu no Rio de Janeiro. O cenário da nossa história é a Praça XV, palco de muitos acontecimentos. Entre eles, um episódio que ficou conhecido pela sigla “PR”, apelidada, na época, de “Ponha-se na rua”.
Sim, a chegada da família real expulsou muita gente de suas próprias casas. E é essa história que vou contar agora.
Conheci esse episódio lendo Joaquim Manuel de Macedo que, para mim, depois de Machado de Assis, é um dos autores que melhor retratam o Rio de Janeiro do século XIX.
No dia 14 de janeiro de 1808, entrou no porto do Rio o brigue de guerra chamado Voador, trazendo ao vice-rei do período, o Conde dos Arcos, a notícia da próxima chegada da família real. Segundo Macedo, o brigue fez jus ao nome, pois “voara” para chegar a tempo com a novidade.
O Conde dos Arcos não descansou enquanto não resolveu todas as questões relacionadas às melhorias necessárias na cidade para receber uma família tão importante. Estimava-se que chegariam menos de cinco mil pessoas e, por isso, começou a organizar a cidade para oferecer alojamento a tanta gente.
Decidiu-se separar a Casa dos Vice-Reis, hoje Paço Imperial, a antiga Casa de Câmara e Cadeia e o Convento do Carmo. Os três prédios foram conectados por passadiços para facilitar a circulação da realeza.
Você pode estar se perguntando o que aconteceu com as pessoas que já ocupavam aqueles espaços. Fique tranquilo: todas foram remanejadas de forma muito agradável, pelo menos para quem chegava.
Os frades carmelitas foram transferidos para o Convento dos Barbonos, que ainda existe, mas hoje abriga o Quartel-General da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, na Rua Evaristo da Veiga. Permaneceram ali por pouco tempo e, depois, foram para o convento da Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro, na Lapa, que passou, por isso, a ser chamado de Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro.
Já os presos foram transferidos para a prisão do Aljube, que não existe mais, mas ficava na Rua Acre. Tratava-se de uma prisão eclesiástica que o bispo D. Antônio de Guadalupe havia preparado para aqueles que merecessem punição.
O absurdo dessa história, porém, estava por vir.
Quando a família real chegou, vieram mais de 15 mil pessoas junto. O Conde dos Arcos não havia preparado alojamento para tanta gente. Foi então que começaram as aposentadorias.
Segundo Macedo, não havia habitante que dormisse tranquilo em sua própria casa e acordasse com a certeza absoluta de que dormiria novamente sob o mesmo teto. Quanto mais bonita e espaçosa fosse a residência, mais exposto ficava seu morador ao “quero” dos privilegiados.
A aposentadoria era, portanto, um arranjo de uns à custa de outros. Havia um juiz aposentador, e o processo acontecia em cinco passos:
1º — O privilegiado dirigia-se ao aposentador e dizia que precisava da casa tal, na rua tal.
2º — O aposentador encarregava um meirinho de ir satisfazer o desejo do privilegiado.
3º — O meirinho saía com um pedaço de giz na mão e escrevia na porta designada as letras “PR”, de Príncipe Regente.
4º — O proprietário ou morador tinha 24 horas para se mudar.
5º — O privilegiado aposentava-se na residência.
E tudo isso acontecia com muita frequência, o que era desesperador. Para piorar, muitas vezes ocorria sem o conhecimento do próprio Príncipe Regente. Até que, por conta da atitude de um juiz de fora, as coisas começaram a mudar, como conta Macedo.
Era o desembargador Agostinho Petra de Bittencourt, homem justo e severo. Havia algum tempo que estava incomodado com aqueles abusos. Certo dia, um fidalgo entrou em sua sala pela quarta vez.
Na primeira visita, havia pedido uma boa casa. Na segunda, solicitara outra, ainda melhor. Na terceira, exigira mobília.
Não contente com tudo isso, naquela quarta vez, pediu um excelente criado.
Agostinho, sem lhe dar resposta, chamou sua esposa para a sala. Quando ela chegou, ele logo lhe disse:
— Apronte-se, Sra. D. Joaquina, estamos às vésperas de nos separarmos. Este nobre fidalgo já me pediu casa, depois mais casa, depois mobília, agora um criado. Amanhã, provavelmente, há de querer que eu lhe dê uma mulher. E, como não tenho outra senão a senhora, não tenho outra solução senão servi-lo. Apronte-se, D. Joaquina, apronte-se.
O fidalgo saiu furioso e, querendo vingança, contou tudo ao Príncipe Regente, D. João. Este, sem entender o ocorrido, chamou o juiz de fora.
Petra contou-lhe todos os abusos que o incomodavam havia algum tempo e expôs a verdade. A partir daí, as aposentadorias foram drasticamente reduzidas e passaram a ser executadas de maneira mais branda.
Você pode estar se perguntando: “Mas o que acontecia com os moradores? Eles passavam a viver na rua?”
Bom, não exatamente.
Alguns passavam a alugar um quarto dentro da própria casa. Outros iam se refugiar em pensões e cortiços. Havia ainda aqueles que recorriam às casas de cômodo.
Absurda e interessante, como eu disse, não é?
E pensar que isso de fato aconteceu no Rio Antigo. Aposto que, da próxima vez que você passar pela Praça XV, vai se lembrar dessa história que teve ali um de seus principais cenários.
Daqui a 15 dias, temos mais um encontro marcado com outra história que aconteceu no Rio Antigo.
Até lá!