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A loja que deixou saudades

Quando o Rio tinha sua Torre Eiffel: a história do magazine que vestiu gerações na Rua do Ouvidor

A Torre Eiffel atravessou mais de sete décadas no coração do comércio carioca vestiu nomes como Rui Barbosa, ganhou um dos mais espetaculares palácios comerciais da cidade e chegou a ter loja em Copacabana

A Torre Eiffel em publicação de 1913 — O estabelecimento de F. Portella & Cia. aparecia então como uma das grandes referências do comércio masculino da capital, já instalado em sua monumental sede da Rua do Ouvidor - Reprodução de Impressões do Brazil no Século Vinte, 1913

Quem hoje percorre a Rua do Ouvidor entre a Avenida Rio Branco e a Rua Primeiro de Março precisa fazer algum esforço de imaginação para enxergar a cidade que existiu ali durante sua época de ouro. A rua continua estreita, os lotes ainda guardam parte do desenho antigo e, aqui e ali, algum sobrado sobrevivente oferece uma pista. Mas é preciso retirar mentalmente as fachadas mutiladas, os aparelhos de ar-condicionado, as marquises improvisadas e as portas metálicas para devolver ao lugar o movimento de senhoras de chapéu parando diante das vitrines, homens de paletó, caixeiros às portas das lojas, vendedores de jornais, cafés, confeitarias, perfumes, tecidos e o burburinho de uma via onde, durante décadas, boa parte do Rio elegante ia não apenas comprar, mas também passear, encontrar conhecidos e observar quem passava.

A Rua do Ouvidor era chamada de “beco do luxo” e funcionava, muito antes dos shopping centers, como uma vitrine comprida da própria cidade. Ali estavam modistas, joalheiros, livreiros, alfaiates, chapelarias e algumas das casas comerciais mais prestigiosas da capital. Era uma rua profundamente marcada pela influência francesa, onde até os nomes dos estabelecimentos procuravam aproximar o Rio de Paris. Foi nesse ambiente que, em dezembro de 1889, surgiu uma loja cujo nome não poderia ser mais afinado com aquele momento: A Torre Eiffel.

A verdadeira Torre Eiffel havia acabado de ser inaugurada para a Exposição Universal de Paris e se transformara quase imediatamente em símbolo da modernidade técnica do fim do século XIX. No Rio, apenas cinco semanas depois da Proclamação da República, a firma Portella, Rabello & C. anunciava a abertura de seu estabelecimento no número 77 da Rua do Ouvidor. Em 21 de dezembro de 1889, os jornais informavam que, ao meio-dia, a nova casa abriria as portas ao público. Apresentava-se como especializada em artigos para homens e fazia questão de anunciar uma novidade comercial que se tornaria uma de suas marcas: “vender a preços fixos”.

Por trás da Torre Eiffel estava Francisco Portela, comerciante cearense pertencente a uma família cuja presença no grande varejo carioca acabaria sendo muito maior do que a história de uma única loja. Os documentos comerciais da época frequentemente grafavam o sobrenome como “Portella”, forma que permaneceria na firma F. Portella & Cia.; a genealogia familiar, porém, registra Portela. Francisco era irmão de Antônio Portela, também cearense, que se estabeleceria no Rio e fundaria, em 1893, outra das mais célebres casas comerciais da cidade: a Casa Colombo. A ligação entre os dois irmãos não era apenas familiar. Em 1890, Antônio aparecia na diretoria da Companhia Chapelaria Brasileira, enquanto Francisco integrava sua comissão fiscal; no ano seguinte, ambos figuravam entre os incorporadores da Companhia Torre Eiffel.

A dimensão pretendida para a Torre Eiffel já aparece no prospecto de constituição dessa companhia, publicado em março de 1891. O capital anunciado era de 2.000 contos de réis, podendo chegar a 4.000, e o objetivo declarado era montar no Rio um estabelecimento de artigos masculinos inspirado nas principais casas europeias. A companhia adquiria a própria Torre Eiffel, então na Rua do Ouvidor 77, e o estabelecimento Aux 100.000 Paletots, na Rua da Quitanda 77, além de contratar o imóvel vizinho, Ouvidor 79, para ampliar o negócio. O prospecto estimava as vendas anuais das duas casas em 1.400 contos e projetava a possibilidade de chegar a 2.000 contos, números promocionais da própria companhia, mas suficientes para demonstrar a escala da operação que seus incorporadores pretendiam montar.

Aquela não seria uma pequena alfaiataria da Rua do Ouvidor. O plano abrangia roupas prontas, roupas brancas, chapelaria, calçados, objetos para viagem e uma grande oficina de alfaiataria, com pessoal que se pretendia contratar nas principais casas da Europa. Em 1894, a Torre Eiffel já anunciava os números 77 e 79 e oferecia roupas para homens e meninos, camisas, ceroulas, gravatas, chapéus, bengalas, guarda-chuvas, malas, sacos de viagem, perfumarias e artigos de verão. A publicidade registrava inclusive a chegada de mercadorias trazidas da Europa. Era o tipo de estabelecimento que permitia ao freguês entrar procurando um paletó e sair vestido, perfumado, de chapéu e com a mala pronta para embarcar.

Enquanto Francisco consolidava a Torre Eiffel, o irmão Antônio construía sua própria potência comercial. A Casa Colombo, fundada em 1893, viria a ocupar a esquina da Rua do Ouvidor com a futura Avenida Central, especializando-se também em artigos masculinos. Outro ramo da mesma família chegaria ainda ao O Pavilhão, grande magazine da Rua do Ouvidor pertencente a Raul Portela, sobrinho de Francisco e Antônio. A família Portela ajudou, portanto, a escrever um capítulo inteiro da história do varejo carioca, e não apenas a trajetória de uma única casa.

Moda de inverno na Torre Eiffel, 1938 — Homens elegantemente vestidos e a silhueta da torre parisiense compõem a propaganda de uma casa que, quase cinquenta anos após a fundação, ainda era referência no comércio masculino carioca
Moda de inverno na Torre Eiffel, 1938 — Homens elegantemente vestidos e a silhueta da torre parisiense compõem a propaganda de uma casa que, quase cinquenta anos após a fundação, ainda era referência no comércio masculino carioca - Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

A relação entre Torre Eiffel e Casa Colombo, aliás, não era apenas de parentesco: era também de concorrência feroz. Uma crônica de 1900 descreveu a Torre Eiffel anunciando uma liquidação com abatimento de 25%. No dia seguinte, a Casa Colombo reagiu com sua própria campanha. A multidão que se apertara para entrar na Torre Eiffel dividiu-se entre as duas casas, levando o cronista a escrever uma frase que talvez descreva melhor do que qualquer estatística a força daquele comércio: “Não era uma freguezia; era uma romaria.” As demais lojas da Rua do Ouvidor foram obrigadas a responder com suas próprias liquidações. Em poucas linhas de jornal aparece uma cena formidável do Rio de então: duas casas pertencentes a irmãos disputando multidões e arrastando todo o comércio da rua para uma guerra de preços.

Essa competição também ajuda a compreender o quanto o comércio carioca estava mudando. A loja tradicional, pequena, dependente da negociação pessoal e da freguesia quase doméstica, começava a dividir espaço com magazines capazes de importar em escala, organizar setores, produzir publicidade constante e transformar vitrines em instrumentos de sedução. A Torre Eiffel estava no centro dessa transformação. Quando anunciava preços fixos, grandes liquidações e casas de compras na Europa, estava importando também uma maneira moderna de vender.

Poucos anos depois, o próprio Rio seria profundamente transformado. A abertura da Avenida Central durante as reformas de Pereira Passos atingiu o quarteirão onde funcionava a Torre Eiffel. Em 1903, Francisco Portela adquiriu outro imóvel na mesma Rua do Ouvidor, nos números 97 e 99, onde anteriormente estivera instalado o jornal O Paiz. A solução não foi adaptar simplesmente o prédio existente. Portela decidiu construir para sua loja uma sede à altura do negócio que havia criado.

A fachada  principal do palácio da Torre Eiffel, na Rua do Ouvidor 97–99 — Projeto do engenheiro C. Arno Gierth, inaugurado em 1905, o edifício tornou-se um dos marcos do comércio carioca e permaneceu ligado à imagem da loja por mais de seis décadas
A fachada principal do palácio da Torre Eiffel, na Rua do Ouvidor 97–99 — Projeto do engenheiro C. Arno Gierth, inaugurado em 1905, o edifício tornou-se um dos marcos do comércio carioca e permaneceu ligado à imagem da loja por mais de seis décadas - Acervo: Biblioteca Nacional

O projeto foi entregue ao engenheiro C. Arno Gierth, cuja autoria aparece claramente em fontes contemporâneas à obra. Isso é importante porque algumas referências posteriores atribuíram o edifício a Adolfo Morales de los Ríos, autor de diversos prédios da Avenida Central. A documentação da inauguração, entretanto, informa que, após consultar vários profissionais, F. Portella & Cia. confiou a Gierth o plano e a empreitada, sob fiscalização do engenheiro Bernardo Ribeiro de Freitas. As obras começaram no fim de 1904 e a nova Torre Eiffel foi inaugurada em 2 de outubro de 1905.

Era um verdadeiro palácio comercial. A fachada tinha aproximadamente 12,50 metros de largura e 18,50 metros de altura, com uma grande entrada central ladeada por amplos mostradores. O salão principal avançava cerca de 26 metros para dentro do lote, com 325 metros quadrados, galerias superpostas sustentadas por colunas de ferro fundido, uma grande claraboia, escadaria de mármore, vitrais, mosaicos e armações de vinhático. Havia gabinetes de prova de alfaiataria decorados em estilo Luís XV. Nos fundos, voltada para a Rua Nova do Ouvidor, funcionava a seção de alfaiataria, com dependências destinadas inclusive ao pessoal da casa.

A imprensa ficou impressionada. O Malho, poucos dias depois da abertura, dizia que a casa estava “um primor de belleza”, destacando o luxo e o cuidado dos interiores. Outra publicação registrou que o estabelecimento possuía 58 empregados e que a inauguração reunira senhoras, negociantes, representantes da imprensa e outras figuras da sociedade, com bênção religiosa realizada pelo cônego Fernando Rangel. O jornal chegou a prognosticar que a nova sede seria, por muito tempo, um dos mais belos edifícios da capital.

Vitrine da Loja A Torre Eiffel, do acervo do antiquário Márcio Roiter
Vitrine da Loja A Torre Eiffel, do acervo do antiquário Márcio Roiter - Acervo pessoal - Márcio Roitter

É preciso imaginar aquela fachada não como a fotografia estática que chegou até nós, mas exercendo sua função na rua. As grandes vitrines ficavam praticamente à altura dos olhos de quem caminhava pela Ouvidor. Diante delas passavam os milhares de cariocas que utilizavam aquela rua todos os dias, e os mostradores precisavam disputar a atenção desse público antes mesmo que ele entrasse na loja. Uma dessas antigas vitrines da Torre Eiffel - em estilo art nouveau -  sobreviveu à própria casa e pertence hoje ao antiquário e marchand  Márcio Roiter. Fora do edifício para o qual foi fabricada, ela se tornou uma peça de arqueologia comercial do Rio, um fragmento material de uma época em que a vitrine era um dos principais espetáculos oferecidos pela cidade ao pedestre.

O sortimento da Torre Eiffel acompanhava essa ambição. Um anúncio de 1911 permite quase reconstruir o guarda-roupa masculino de um carioca abastado: casacas, smokings, sobrecasacas, fraques, jaquetões, paletós, sobretudos, capas, calças de casimira e de flanela, coletes e pijamas. Havia ainda os artigos de viagem, chapelaria e camisaria. Em 1916, já com quase três décadas de atividade, a própria publicidade da casa a apresentava, com o natural exagero dos anúncios daquele tempo, como “o mais importante e mais antigo estabelecimento do seu gênero na América do Sul”.

Entre seus fregueses estava Rui Barbosa. Documentação reunida pela Fundação Casa de Rui Barbosa registra que suas camisas, roupas de baixo e lenços eram comprados na Torre Eiffel, sempre escolhidos com a preocupação característica do jurista por peças simples, mas de excelente qualidade. É um pequeno dado doméstico que diz muito sobre o prestígio da casa: para uma geração de homens da elite política, intelectual e empresarial brasileira, dizer que determinada peça vinha da Torre Eiffel funcionava quase como uma indicação de procedência.

A Torre Eiffel em festa, 2 de outubro de 1907 — Cartão-postal publicitário mostra o interior do magazine ornamentado para o aniversário da inauguração de sua nova sede, com faixas anunciando uma grande venda anual e abatimento de 20%
A Torre Eiffel em festa, 2 de outubro de 1907 — Cartão-postal publicitário mostra o interior do magazine ornamentado para o aniversário da inauguração de sua nova sede, com faixas anunciando uma grande venda anual e abatimento de 20% - Reprodução histórica de cartão-postal da época

O tempo passou, a moda masculina mudou, o Rio deixou para trás as casacas do começo do século e a Torre Eiffel continuou no mesmo endereço. Em 1941, a antiga sociedade em nome coletivo F. Portella & Cia. foi reorganizada. A partir do contrato registrado em dezembro daquele ano, a empresa passou a chamar-se A Torre Eiffel Confecções Ltda., assumindo o ativo e o passivo da firma anterior e permanecendo na Rua do Ouvidor 97–99. O objeto social mostra como a casa havia se diversificado: artefatos de couro, tecidos, peles, borracha, artigos de cama e mesa, vestuário, artigos de viagem e de toucador, alfaiataria e confecções.

Em 1949, um anúncio ainda apresentava a Torre Eiffel como casa de “artigos finos para cavalheiros de bom gosto”, reunindo alfaiataria, camisaria, chapelaria e artigos para viajantes. Em 1954, a publicidade mantinha o desenho da torre parisiense e oferecia artigos para homens e crianças, além de sortimento para o inverno e viagens. A linguagem gráfica havia mudado, os ternos eram outros, os chapéus começavam a perder espaço, mas a casa que abrira em 1889 permanecia reconhecível como a mesma instituição comercial.

A expansão do Rio para a Zona Sul também levou a Torre Eiffel para além da velha Rua do Ouvidor. A empresa teve uma loja em Copacabana, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, acompanhando o deslocamento de parte do comércio elegante em direção ao bairro que se tornara um dos novos centros da vida carioca. Em 1961, a própria publicidade já empregava a expressão “lojas Torre Eiffel”, no plural. A existência da unidade de Copacabana é particularmente significativa porque mostra que a Torre Eiffel não era, na fase final de sua história, apenas uma sobrevivência nostálgica do comércio oitocentista: continuava procurando seus fregueses numa cidade cuja geografia comercial havia mudado profundamente.

Ainda em 1965, a Torre Eiffel funcionava na Rua do Ouvidor. Já haviam desaparecido inúmeras casas contemporâneas de sua fundação, a Avenida Central havia se transformado em Avenida Rio Branco, os grandes magazines modernos haviam conquistado outras partes da cidade e a própria Rua do Ouvidor perdera parte da centralidade absoluta que possuíra no começo do século. Mesmo assim, naquele número 97–99, continuava aberta uma casa fundada 76 anos antes, quando o Brasil acabava de sair da Monarquia. Em maio daquele ano, chegou a ser chamada na Câmara dos Deputados de estabelecimento que havia servido a diversas gerações de cariocas.

Essa longevidade ajuda a explicar por que a Torre Eiffel não pode ser vista simplesmente como mais um belo prédio eclético desaparecido do Centro. Arquitetura e comércio haviam se confundido. Para várias gerações, o prédio era a Torre Eiffel e a Torre Eiffel era aquele prédio. A fachada servia de referência urbana, as vitrines pertenciam à memória de quem passava pela Ouvidor e o estabelecimento carregava consigo uma história que começara quando as ruas ainda eram iluminadas por outra cidade e chegava à era dos edifícios de escritórios, do automóvel e de Copacabana.

É justamente por isso que um detalhe da história de sua destruição chama tanta atenção. Lúcio Costa, um dos personagens centrais da arquitetura moderna brasileira e homem cuja relação com o ecletismo estava muito longe de ser afetuosa, apoiou a preservação da Torre Eiffel. Anos depois, Costa ainda descreveria parte da arquitetura eclética como uma espécie de interrupção na evolução arquitetônica e se colocaria contra a preservação de edifícios como o Palácio Monroe. No caso da Torre Eiffel, porém, entendeu que a importância histórica e afetiva da casa ultrapassava sua própria resistência estética ao estilo. Em parecer favorável ao tombamento estadual, considerou que sua perda significaria “um prejuízo irreparável para a história da cidade e para o patrimônio sentimental de todos os cariocas”. Sua importância era tanta que chegou a existir  uma outra Torre Eiffel, com similar requinte, na cidade de Fortaleza, terra dos Portella. 

Loja da Torre Eiffel em Fortaleza
Loja da Torre Eiffel em Fortaleza - Reprodução

Poucos elogios poderiam dimensionar melhor a importância daquela loja. Se até Lúcio Costa, representante de uma geração que muitas vezes olhou com severidade para a arquitetura produzida no Rio da Belle Époque, considerava indispensável preservar a Torre Eiffel, é porque ali já se enxergava algo maior do que ornamentos, colunas e vitrines. Preservava-se a lembrança da Rua do Ouvidor como principal rua comercial do país, da formação dos primeiros grandes magazines, da família Portela, da Casa Colombo, dos caixeiros, alfaiates e viajantes, de Rui Barbosa escolhendo suas camisas e de uma sociedade inteira que durante décadas marcou encontros e fez compras diante daquela fachada.

O grande salão da Torre Eiffel em funcionamento — Balcões, mercadorias e empregados aparecem sob as galerias do magazine, revelando a escala e a sofisticação de uma das mais importantes casas comerciais do Rio de Janeiro de seu tempo
O grande salão da Torre Eiffel em funcionamento — Balcões, mercadorias e empregados aparecem sob as galerias do magazine, revelando a escala e a sofisticação de uma das mais importantes casas comerciais do Rio de Janeiro de seu tempo - Acervo: Biblioteca Nacional / Brasiliana Fotográfica.

 

A demolição de 1967, entretanto, não deve ser confundida com uma falência ou com o desaparecimento imediato da Torre Eiffel. A empresa não era proprietária do imóvel naquele momento, mas inquilina do 97–99. O edifício pertencia a terceiros e acabou vendido a um novo interessado, que pretendia dar outra destinação ao terreno e demolir a construção existente. Foi a perda do imóvel, e não a insolvência da tradicional casa comercial, que retirou a Torre Eiffel de sua sede histórica.

A distinção é essencial para compreender o que aconteceu depois. A Torre Eiffel sobreviveu à destruição da Rua do Ouvidor e continuou sua trajetória comercial, especialmente através da unidade de Copacabana. O desaparecimento do palácio de 1905, portanto, não significou que as portas da empresa se fecharam naquele mesmo momento. O que terminou em 1967 foi uma relação de mais de seis décadas entre a casa comercial e o endereço que se tornara sua imagem mais conhecida.

Mas uma grande casa comercial também é feita de endereço, vizinhança e memória, e nisso a Torre Eiffel sofreu uma perda da qual nunca conseguiria se recuperar inteiramente. Copacabana podia oferecer novos fregueses e uma cidade que avançava para a Zona Sul; não podia devolver à empresa a esquina simbólica que a colocava dentro da história da Rua do Ouvidor. O grande palácio comercial funcionava como sua sede, seu cartão de visitas e sua ligação física com a época em que a Ouvidor era o centro absoluto do comércio elegante do Rio. Sem ele, a Torre Eiffel continuou existindo, mas deixou de ocupar a mesma posição que tivera durante tantas décadas no imaginário carioca.

Interior monumental da Torre Eiffel, início do século XX — Vista do grande salão da casa comercial, com galerias superpostas, colunas de ferro, balcões e a escadaria ao fundo. A imagem dá a dimensão do verdadeiro “palácio do comércio” instalado na Rua do Ouvidor
Interior monumental da Torre Eiffel, início do século XX — Vista do grande salão da casa comercial, com galerias superpostas, colunas de ferro, balcões e a escadaria ao fundo. A imagem dá a dimensão do verdadeiro “palácio do comércio” instalado na Rua do Ouvidor - Acervo: Biblioteca Nacional / Brasiliana Fotográfica

A diferença é importante também para olhar o prédio que hoje ocupa o endereço. Em lugar da fachada monumental inaugurada em 1905 surgiu um edifício comercial comum, incapaz de transmitir ao passante qualquer sinal da história que se acumulou naquele lote. Quem atravessa hoje diante do número 97 pode fazê-lo sem imaginar que ali funcionou durante décadas uma das casas comerciais mais famosas do país. É preciso conhecer as fotografias antigas para perceber a dimensão da ausência e entender por que a perda daquela sede teve impacto tão profundo mesmo sobre uma empresa que continuou funcionando depois dela.

A história comercial da Torre Eiffel, portanto, não termina com uma falência nem com uma porta baixada em 1967. Ela começa no número 77 em 1889, expande-se para o 79, participa da modernização do varejo, pertence a uma família que também colocou seu nome na Casa Colombo e no O Pavilhão, sobrevive à abertura da Avenida Central, transfere-se para um palácio construído especialmente para recebê-la, atravessa a primeira metade do século XX, chega a Copacabana e permanece ativa depois de ver desaparecer sua própria sede monumental.

Já a história de como o Rio de Janeiro permitiu a demolição de um edifício que até Lúcio Costa julgava indispensável à memória sentimental da cidade merece ser contada separadamente. Ela envolve jornalistas, intelectuais, órgãos de patrimônio, proprietários, inquilinos, Carlos Lacerda e uma disputa que antecipou muitas das batalhas que o Centro do Rio travaria nas décadas seguintes entre preservação e especulação imobiliária. Essa será outra reportagem.

Nesta, fica a história da casa comercial. Uma casa que não faliu quando perdeu sua Torre Eiffel de pedra, ferro, vidro e mármore, mas que jamais voltou a ser exatamente a mesma depois que o Rio lhe arrancou o palácio onde, durante mais de sessenta anos, sua história e a história da Rua do Ouvidor haviam se confundido.

 

 

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.