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Comércio Histórico

A Notre Dame de Paris: a loja que trouxe Paris para a Rua do Ouvidor e vestiu o Rio por mais de 120 anos

Fundada em 1848, ainda no Império, A Notre Dame de Paris começou como uma casa de modas francesas e cresceu até ocupar um vasto complexo entre a Rua do Ouvidor, o Largo de São Francisco e a Travessa do Rosário. Fornecedora da Casa Imperial, pioneira dos grandes magazines cariocas e sobrevivente de sucessivas transformações do Centro, atravessou mais de um século antes de desaparecer nos anos 1970

Fachada de A Notre Dame de Paris voltada para o Largo de São Francisco - a loja ocupava diversos sobrados da Ouvidor, Reitor Azevedo do Amaral (antiga Travessa do Rosário) e várias portas pro Largo de São Francisco - Foto: Reprodução restaurada

Houve um tempo em que caminhar pela Rua do Ouvidor era uma maneira de conhecer o Rio e, de certo modo, descobrir o que a cidade desejava ser. A rua era estreita, movimentada e quase sempre congestionada de gente. Das portas escapavam conversas em português e francês, o cheiro dos charutos misturava-se ao dos cafés e das confeitarias, e atrás das vitrines acumulavam-se sedas, chapéus, joias, livros e novidades recém-desembarcadas da Europa. O estrangeiro Carl von Koseritz escreveu que ali se concentrava o melhor comércio de luxo do Rio e que suas grandes casas de moda, entre elas A Notre Dame de Paris, podiam competir com estabelecimentos de Paris e Berlim. 

Foi nesse ambiente que nasceu, em 1848, A Notre Dame de Paris, uma das casas comerciais mais antigas, importantes e longevas da história do Rio de Janeiro. Dois anos depois, em 1850, Cazaux, Décap & C. já aparecia no Almanak Laemmert, na Rua do Ouvidor nº 155, entre as casas de confections, modes et nouveautés, isto é, confecções, modas e novidades. O estabelecimento pertencia a um momento em que a França exercia influência extraordinária sobre os hábitos da elite brasileira e a Rua do Ouvidor se transformava na principal passarela dessa relação. 

A ligação francesa não se limitava ao nome escolhido para a loja. Seus proprietários viajavam à Europa, compravam mercadorias em Paris e faziam da chegada dos paquetes um acontecimento comercial. Sedas, fazendas finas, roupas, acessórios e novidades da estação atravessavam o Atlântico para abastecer os salões da casa. Em 1857, apenas nove anos depois de fundada, A Notre Dame de Paris alcançou um dos maiores símbolos de prestígio disponíveis a um comerciante da Corte: recebeu de D. Pedro II a mercê que lhe permitia apresentar-se como fornecedora de S.M. a Imperatriz e SS.AA. Imperiais. 

De uma pequena casa a um magazine que tomou o quarteirão

Nesta foto do Largo de São Francisco de Paula, esquina de Ouvidor, o prédio da Charutaria Havaneza, e na extremidade esquerda, um grande cartaz que ficava em cima da entrada de A Notre Dame de Paris dando 25% de desconto aos clientes
Nesta foto do Largo de São Francisco de Paula, esquina de Ouvidor, o prédio da Charutaria Havaneza, e na extremidade esquerda, um grande cartaz que ficava em cima da entrada de A Notre Dame de Paris dando 25% de desconto aos clientes - Foto: Reprodução

A história empresarial de A Notre Dame acompanha sua expansão física. Noel Décap aparece como a figura central dos primeiros tempos. A firma inicial, Cazaux, Décap & C., passou por reorganizações e tornou-se Cazaux & Décap. Em 1859, com a retirada de Edmond Cazaux, Décap associou-se ao francês Eugène Autéage, constituindo Décap & Autéage, que continuou explorando A Notre Dame de Paris.

A marca, portanto, mostrou desde cedo uma característica que contribuiria para sua extraordinária longevidade: sobrevivia às modificações da sociedade que a controlava. Os sócios mudavam, a razão social se transformava, mas A Notre Dame de Paris permanecia sobre as portas.

O crescimento material foi ainda mais impressionante. Joaquim Manuel de Macedo, que conheceu aquele mundo e fez da Rua do Ouvidor quase uma personagem de suas memórias, recordou que A Notre Dame começara modestamente, com uma porta e duas vidraças na antiga casa de Passos. Quando escreveu sobre ela, a pequena loja havia se transformado num estabelecimento com doze vãos, contando portas e vitrines, voltados para a Rua do Ouvidor. As antigas casas térreas tinham dado lugar a um vistoso sobrado iluminado na parte superior por uma sucessão de bicos de gás. 

Não era simplesmente uma loja que havia aumentado de tamanho. A Notre Dame crescera pela incorporação e interligação de imóveis.

Macedo descreveu quatro lojas que, observadas da rua, pareciam independentes, mas se comunicavam internamente e desembocavam numa sala ou galeria central. Havia sobrado, armazéns, diferentes entradas e saídas e uma organização espacial tão complicada que o escritor brincava com a necessidade de uma carta topográfica para que os fregueses não se perdessem. Chamou aqueles diferentes estabelecimentos reunidos sob a mesma empresa de “lojas confederadas”

A publicidade da própria Notre Dame comprova que a descrição do memorialista não era apenas licença literária. Na virada do século XX, seus anúncios davam três referências de endereço: Rua do Ouvidor, Largo de São Francisco de Paula e Travessa do Rosário. Em janeiro de 1900, por exemplo, uma grande liquidação com 25% de desconto terminava precisamente com essas três localizações. 

Em 1909, outro anúncio, publicado em francês, voltava a apresentar as três frentes e informava que o estabelecimento acabara de receber grande e variado sortimento de artigos modernos, além de manter uma grande oficina de costura especializada em costumes tailleur

Era, na prática, um enorme organismo comercial implantado dentro de um quarteirão do Centro.

Sedas, vestidos, enxovais e a moda de Paris

 

O pioneirismo de A Notre Dame não pode ser medido apenas em metros de fachada. A casa ajudou a introduzir no Rio uma forma de comércio que se aproximava do magazine e, posteriormente, da loja de departamentos: grande variedade de mercadorias, divisão por especialidades, vitrines elaboradas, oficinas próprias, intensa publicidade e a transformação da compra numa experiência social.

Nas suas seções encontravam-se sedas, fazendas francesas, vestidos, manteletes, rendas, chapéus, roupa branca, lingerie, artigos infantis, roupas de cama e mesa, enxovais e acessórios. Havia costureiras, modistas, caixeiros, empregados administrativos, serventes e oficinas responsáveis por parte das peças vendidas pela casa.

O estabelecimento acompanhava a moda parisiense com uma atenção que hoje pode parecer exagerada para o clima carioca, mas que era parte fundamental do prestígio social daquele comércio. As novidades francesas desembarcavam no porto e rapidamente apareciam nas vitrines da Ouvidor. A historiografia da moda registra justamente como a elite do Rio adotava Paris como referência, chegando a usar tecidos pesados, luvas, espartilhos e chapéus concebidos para estações europeias sob o calor tropical. 

A Notre Dame também fazia parte da vida cultural da Corte. Sua relação com a comunidade francesa era suficientemente estreita para que funcionasse como ponto de venda de ingressos para espetáculos do teatro francês, incluindo apresentações no Teatro Lírico Fluminense. 

Comprar ali, portanto, significava mais do que adquirir uma fazenda. A casa vendia uma determinada ideia de elegância e modernidade, cuidadosamente importada e adaptada ao Rio.

Uma caminhada pela Ouvidor

Interior impressionante da chiquíssima Charutaria Havaneza, vizinha de porta de A Notre Dame, onde os homens aguardavam suas mulheres fazerem compras - a loja ficava na esquina da Ouvidor com o Largo de São Francisco
Interior impressionante da chiquíssima Charutaria Havaneza, vizinha de porta de A Notre Dame, onde os homens aguardavam suas mulheres fazerem compras - a loja ficava na esquina da Ouvidor com o Largo de São Francisco - Reprodução colorizada e restaurada de foto da Revista “A Maçã “

É possível reconstruir aproximadamente o ambiente em que funcionava A Notre Dame observando fotografias, anúncios e descrições da época.

Quem viesse pelo Largo de São Francisco de Paula encontraria, na esquina com a Ouvidor, a Charutaria Havaneza, cujo interior luxuoso foi fotografado no começo do século XX. Passando pela charutaria, entrava-se no território ocupado pelos diferentes corpos de A Notre Dame de Paris. Mais adiante, aproximando-se da Rua Uruguaiana, aparecia a Casa Raunier, outra referência do comércio de luxo e da moda carioca, documentada em 1909 no nº 172 da Ouvidor. 

Décadas depois, no imóvel da Raunier funcionaria a Sloper.

Nas proximidades estava ainda o Parc Royal, fundado posteriormente e transformado em outro símbolo do grande comércio carioca. A concentração dessas casas explica a importância daquele pedaço do Centro: não se tratava de um conjunto aleatório de lojas, mas de um distrito de moda e consumo comparável, em sua função urbana, aos grandes eixos comerciais das capitais europeias.

As fotografias antigas do Largo que chegaram até nós finalmente permitem identificar A Notre Dame naquele conjunto. O letreiro aparece parcialmente em mais de uma tomada, confirmando visualmente a posição que documentos e memorialistas já indicavam. A descoberta é importante para a memória arquitetônica da cidade, mas sobretudo porque devolve forma a um estabelecimento cuja dimensão havia sobrevivido muito melhor nos textos do que nas fotografias.

Um incêndio quase destruiu a casa ainda no Império

Uma empresa que atravessou mais de 120 anos naturalmente sobreviveu a crises que poderiam ter encerrado sua história muito antes.

Em 1872, um grave incêndio atingiu imóveis da Rua do Ouvidor e as chamas avançaram em direção a A Notre Dame de Paris. O episódio mobilizou o Corpo de Bombeiros, que concentrou esforços em impedir que o estabelecimento fosse tomado pelo fogo. A operação conseguiu conter o incêndio e salvar a casa.

É um episódio significativo não apenas pela dramaticidade. A Notre Dame ainda estava nos primeiros 25 anos de sua existência e poderia ter desaparecido ali mesmo. Sobreviveu e continuou crescendo.

Há também uma memória oral posterior de outro incêndio, provavelmente ocorrido já no século XX. Em depoimento recolhido pelo Museu da Pessoa, uma antiga frequentadora recordou ter chorado quando a Sloper fechou e quando A Notre Dame de Paris pegou fogo. Não foi possível, até agora, estabelecer documentalmente a data e a extensão desse segundo incêndio, nem demonstrar que ele tenha provocado o encerramento da empresa. Por isso, os dois acontecimentos não devem ser confundidos.

Em 1922, uma nova família assume A Notre Dame

Anúncio da Notre Dame de Paris
Anúncio da Notre Dame de Paris - Reprodução

A grande mudança de controle no século XX ocorreu em 1922, quando o comerciante português José dos Santos Guimarães adquiriu A Notre Dame de Paris.

Guimarães não era um aventureiro chegando ao varejo. Já possuía experiência em outras casas comerciais e construiu um grupo de estabelecimentos no Rio. A aquisição da Notre Dame colocava sob seu comando uma marca que naquele momento já caminhava para os 75 anos.

Uma reportagem publicada no ano seguinte descreveu a dimensão dos grandes armazéns adquiridos por Guimarães. A imagem utilizada pelo jornalista é reveladora: aquilo parecia menos uma simples casa de comércio do que uma cidade instalada dentro de um quarteirão.

A mudança de proprietários não significou abandono do nome histórico. Pelo contrário. Sob a firma J. dos Santos Guimarães & Cia., A Notre Dame continuou operando e anunciando.

Em 1931, entrou formalmente na sociedade Armando Albuquerque dos Santos Guimarães, antigo auxiliar da casa e filho de José. Pouco depois, diante da doença do pai, Armando passou a assumir efetivamente os negócios. Em 1937 já era apresentado publicamente como principal sócio e gerente de A Notre Dame de Paris.

Era mais uma passagem de geração numa empresa que já havia visto passar o Império, a Abolição, a República, as reformas de Pereira Passos e a abertura da Avenida Central.

Reformar para sobreviver

Uma das explicações para tamanha longevidade estava na capacidade de renovação.

Em 1929, A Notre Dame anunciou uma importante transformação de suas instalações internas. A casa fecharia temporariamente para concluir as obras e reabriria poucos dias depois. Não temos elementos suficientes para atribuir aquela intervenção a determinado arquiteto ou afirmar que a fachada tenha sido modificada, mas o episódio mostra uma empresa consciente de que tradição, sozinha, não bastava.

O mesmo acontecia com a publicidade. A Notre Dame atravessou diferentes linguagens gráficas, desde anúncios tipográficos oitocentistas ornamentados com símbolos imperiais até peças ilustradas do século XX. Em 1916, por exemplo, anunciava uma redução geral de 20% em todas as mercadorias

Vitrines, liquidações, lançamentos de estação e publicidade nas grandes revistas ilustradas ajudaram a impedir que a casa se transformasse num monumento comercial envelhecido.

E funcionou por muito tempo.

Uma loja do tempo de D. Pedro II ainda premiada em 1971

A dimensão histórica de A Notre Dame aparece de maneira especialmente clara quando se chega ao final de sua trajetória.

A casa fundada em 1848 ainda funcionava nos anos 1960 e permanecia ativa no começo da década seguinte. Em 1971, com mais de 120 anos, ainda era capaz de disputar e vencer um concurso de vitrines entre estabelecimentos cariocas.

Não se tratava, portanto, de uma velha placa sobrevivendo numa porta esquecida. A Notre Dame continuava disputando a atenção do consumidor.

Pouco tempo depois, porém, desapareceu.

Um depoimento registrado em 1974 pelo projeto NURC, da UFRJ, preserva a reação de uma carioca diante do fechamento. Ela recordava a casa onde haviam comprado sua mãe, suas tias e sua avó e conta a surpresa de chegar à Rua do Ouvidor e encontrá-la fechada. 

A passagem é particularmente importante porque explica, sem estatísticas, o significado de uma empresa com aquela longevidade. Quatro gerações de uma mesma família podiam ter comprado na mesma loja.

Mais de 120 anos não são um detalhe

É difícil encontrar no comércio brasileiro empresas capazes de atravessar tantas transformações urbanas, políticas e econômicas mantendo uma mesma identidade comercial.

Entre 1848 e o começo dos anos 1970, A Notre Dame de Paris atravessou mais de 120 anos. Quando abriu, D. Pedro II tinha 22 anos. Quando desapareceu, o Rio já não era sequer Distrito Federal: era a capital do Estado da Guanabara.

Nesse intervalo vieram a Guerra do Paraguai, a Abolição, a República, a demolição de parte do velho Centro, a Avenida Central, os automóveis, o rádio, o cinema, duas guerras mundiais, a televisão e a mudança da capital para Brasília. A Notre Dame continuava na Rua do Ouvidor.

A comparação com casas como Harrods, Selfridges ou Macy’s deve naturalmente respeitar as diferenças de dimensão e de mercado, mas é pertinente num aspecto fundamental: grandes estabelecimentos comerciais centenários acabam deixando de pertencer somente a seus proprietários. Tornam-se referências urbanas e culturais. Uma A Notre Dame de Paris sobrevivente teria hoje 178 anos e provavelmente seria encarada como parte do patrimônio histórico e afetivo do Rio.

A cidade perdeu essa possibilidade.

O prédio que desapareceu e a fachada que parece antiga, mas não é

A perda de A Notre Dame de Paris não foi somente empresarial. Parte importante do conjunto arquitetônico que durante décadas abrigou a casa também desapareceu.

Ainda não conseguimos determinar com segurança quando ocorreu a demolição de cada trecho do complexo, por que ela ocorreu e qual foi a sequência exata entre incêndios, encerramento da empresa, demolições e novas construções. Seria imprudente preencher essas lacunas com uma narrativa que os documentos disponíveis não permitem sustentar.

O que é possível perceber hoje é outra coisa. Grande parte do imóvel reconstruído é atualmente ocupada pela C&A, numa fachada que procura conversar com a arquitetura histórica daquele trecho da Rua do Ouvidor. Ela pode induzir o passante desavisado a imaginar que está diante do velho prédio de A Notre Dame de Paris.

Não está.

Aquelas fachadas emulam a linguagem arquitetônica histórica, mas não são as fachadas originais de A Notre Dame de Paris. E a ocupação atual pela C&A tampouco corresponde necessariamente aos limites exatos do gigantesco complexo que a antiga casa foi formando ao longo de sua existência.

Essa diferença é fundamental porque a própria história de A Notre Dame foi uma história de crescimento imobiliário. Ela começou pequena e anexou casas, abriu passagens, reuniu lojas, alcançou outras faces do quarteirão e criou internamente aquilo que Macedo chamou de suas “lojas confederadas”. A arquitetura era parte da história empresarial.

Hoje, quem sair do Largo de São Francisco e entrar pela Rua do Ouvidor ainda poderá refazer aquele percurso. A Charutaria Havaneza desapareceu. A Casa Raunier desapareceu. A Sloper também se foi. O Parc Royal sobrevive apenas na memória e nos documentos. A Notre Dame de Paris, que durante mais de um século recebeu gerações de cariocas, também não está mais ali.

Mas é justamente nesse pequeno trecho do Centro, entre fachadas reconstruídas, edifícios modificados e nomes esquecidos, que permanece uma das histórias mais impressionantes do comércio carioca. A Notre Dame de Paris nasceu em 1848 como uma casa de modas francesas e terminou mais de 120 anos depois como uma instituição da cidade. Sua trajetória ajuda a lembrar que a Rua do Ouvidor não foi simplesmente uma rua onde havia boas lojas: durante muito tempo, foi o lugar onde o Rio ia descobrir como queria se vestir, o que queria comprar e até que cidade queria parecer.

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.