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Casa Raunier: o palácio da moda da Rua Uruguaiana que vestiu o Rio, provocou escândalo e ganhou até uma valsa

Fundada em 1855, a casa de um alfaiate francês entrou na literatura de José de Alencar, forneceu roupas a Rui Barbosa e transformou uma esquina do Centro num monumento à elegância. Em seus ateliês, a novidade de uma saia-calção provocou tumulto, mobilizou a polícia e ganhou até uma composição musical

A majestosa sede da Casa Raunier, na esquina da rua do Ouvidor com a Uruguaiana e com a atual Rua Reitor Azevedo do Amaral, no Centro Histórico ro Rio: ocupou o local onde depois veio a Sloper, e por fim q Leader, recém fechada - Foto Real restaurada por IA

Quem percorre a Rua do Ouvidor sem a pressa dos compromissos descobre que algumas das maiores ausências do Centro só aparecem quando se levantam os olhos. Entre o cheiro de café dos balcões, o rumor do comércio e a sombra dos sobrados, as travessas convidam a pequenos desvios. Na chegada à Rua Uruguaiana, uma fotografia antiga impõe uma parada mais longa: naquele encontro de ruas houve um palácio comercial de dois torreões, cuja fachada acompanhava o quarteirão até a Travessa do Rosário. Era a Casa Raunier, um estabelecimento que fazia da própria arquitetura uma promessa sobre a qualidade do que se encontraria depois de atravessar suas portas.  Ali mesmo, no local onde funcionou depois por décadas a Casa Sloper e depois a Leader Magazine.

A vizinhança ajuda a recuperar a escala daquele cenário. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na Uruguaiana 77, permanecia próxima, separada do conjunto comercial pela estreita travessa. O palácio da moda não estava numa avenida distante, isolado entre jardins, mas integrado à malha de ruas e passagens onde o Rio concentrava parte importante de sua vida cotidiana. Para contemplá-lo, bastava chegar pela Ouvidor e contornar a esquina: a elegância se oferecia à rua antes mesmo de se oferecer ao comprador. 

A força daquelas fachadas, entretanto, acabou por esconder uma história maior do que o prédio. A Raunier já era conhecida quando os torreões ainda não existiam e continuou sua atividade depois de reduzir a ocupação do grande estabelecimento. Entre a alfaiataria do Império e os anúncios da década de 1930, seu nome atravessou gerações, acompanhando mudanças no vestuário, no comércio e na maneira como os cariocas se apresentavam uns aos outros. 

Um alfaiate na rua onde o Rio se exibia

A história começou em 1855, quando o francês Édouard Raunier estabeleceu sua alfaiataria na Rua do Ouvidor. A atividade inicial estava ligada ao vestuário masculino, num endereço em que comprar, passear e ser visto se confundiam. A Ouvidor reunia comércio de moda e espaços de sociabilidade; o traje usado no passeio participava da apresentação pública de seu proprietário. Segundo a Fundação Casa de Rui Barbosa, os herdeiros assumiram o negócio em 1876, dando continuidade a uma reputação já construída durante o Segundo Reinado. 

Entre os responsáveis pelo crescimento esteve o português João Lopes Ferreira Cabral, cuja ligação com a empresa também se tornou familiar: uma de suas filhas casou-se com Gabriel José Raunier. Cabral morreu em 1892; outro sócio, Antônio José do Rego, deixou a sociedade em 1897. Gabriel ganharia destaque na expansão posterior. A denominação Raunier & C. aparece, por exemplo, num anúncio de 1896, que apresenta a alfaiataria na Rua do Ouvidor 136

Muito antes de se tornar um grande magazine, a casa conquistara uma forma duradoura de publicidade involuntária: a literatura. Em “Senhora”, publicado em 1875, José de Alencar coloca uma casaca de Raunier entre os pertences de Fernando Seixas. O móvel envelhecido sobre o qual a peça repousa e a pobreza da habitação contrastam com a qualidade do tecido e a perfeição do corte. O narrador reconhece ali “o chique da casa do Raunier”, apresentado como “o alfaiate da moda”. A procedência da roupa ajuda a explicar o personagem, dividido entre os recursos limitados da vida doméstica e o brilho da aparência social. 

O memorialista Luís Edmundo também encontrou na clientela da casa um retrato das hierarquias cariocas. Em “O Rio de Janeiro do meu tempo”, associa Raunier aos antigos conselheiros de Estado, aos republicanos históricos que haviam melhorado de situação com a mudança de regime e aos comendadores. Seu olhar irônico acompanha uma elite que podia discordar sobre a política, mas continuava a confiar em certos endereços para vestir a própria importância. No mesmo livro, o padre Severiano de Resende, frequentador da Confeitaria Colombo, aparece como cliente da alfaiataria: mandava cortar suas batinas na Raunier. 

A relação com Rui Barbosa ultrapassa a memória literária. A fundação que preserva sua casa identifica a Raunier entre as fornecedoras das camisas usadas pelo jurista, com colarinhos destacáveis, num guarda-roupa marcado pelo uso do fraque. Os depoimentos reunidos em “Lado a lado de Rui” também a mencionam entre seus alfaiates. São referências que devolvem materialidade ao nome comercial: tecidos escolhidos, peças ajustadas, encomendas destinadas a um homem cuja presença pública se tornou uma das mais reconhecíveis do país.

Bem ao lado da Igreja de São Benedito, incendiada nos anos 60, florescia a imponente Raunier
Bem ao lado da Igreja de São Benedito, incendiada nos anos 60, florescia a imponente Raunier - Foto: Restauração de reprodução

 

O palácio que nasceu de uma transformação da rua

A construção do grande estabelecimento esteve ligada à remodelação da Uruguaiana. A pesquisa da historiadora Paula De Paoli, baseada em documentos do Arquivo Geral da Cidade, mostra que a antiga Raunier não ocupava originalmente a esquina. Entre ela e a rua havia uma leiteria da Companhia Laticínios, eliminada pelo alargamento. Gabriel negociou com a Prefeitura e reuniu terrenos na direção da Travessa do Rosário. A reforma urbana abriu, assim, uma oportunidade comercial: a alfaiataria pôde conquistar uma implantação muito mais ampla e uma presença incomparavelmente maior na paisagem. 

A documentação de obras remonta a 1905, enquanto o relato de Ernesto Senna, recuperado pela historiadora Giselle Pereira Nicolau, situa a inauguração em julho de 1907. O edifício ocupava cerca de 800 metros quadrados, com 44 metros de fachada para a Uruguaiana e frentes de aproximadamente 20 metros para a Ouvidor e para a Travessa do Rosário. Eram três pavimentos, revestimento de mármore até o primeiro andar e um torreão principal que alcançava 33 metros de altura na esquina da Ouvidor. 

Nas imagens, o comprimento da fachada e a verticalidade dos torreões produzem um efeito que a enumeração das medidas não alcança. As extremidades assinalam as esquinas, enquanto as aberturas sucessivas dão continuidade ao conjunto. O prédio se deixava apreciar de perto, no passeio diante das portas, e de longe, por quem se aproximava pela rua. Sua representação chegaria à capa de uma partitura dedicada à empresa, evidência de que a arquitetura já integrava a imagem comercial da Raunier. 

A Casa Raunier tinha concorridas promoções e recebia a nata da sociedade carioca
A Casa Raunier tinha concorridas promoções e recebia a nata da sociedade carioca - Reprodução de O Malho

 

Por trás da ornamentação funcionava uma estrutura moderna de vendas e serviços. Uma retrospectiva publicada pela Fon-Fon!, em 1910, descreve 14 aparelhos telefônicos para as comunicações internas, além de automóvel próprio para a entrega de mercadorias. Havia até uma oficina destinada a pequenos reparos em equipamentos elétricos. A dimensão do negócio exigia organizar encomendas, oficinas e expedição; o luxo oferecido ao público dependia também de trabalho administrativo e circulação eficiente de informações. 

Júlia Lopes de Almeida deixou um testemunho particularmente bonito dessa experiência. Depois de percorrer a casa, subiu pelos elevadores e contemplou os telhados do Rio. Abriram-lhe uma janela de canto voltada para a Uruguaiana, de onde observou a rua alargada, as árvores e a luz suave sobre o asfalto. A escritora enxergava a transformação da cidade de dentro de um edifício que participava dela. O estabelecimento era também um mirante, capaz de oferecer outra perspectiva sobre ruas que, ao nível da calçada, se conheciam de maneira inteiramente diferente. 

Paris, oficinas e publicidade

Sob Gabriel, a casa ampliou as seções femininas e as oficinas de costura, além de estabelecer uma filial em São Paulo. A referência à França tinha uma base operacional: em 1910, a empresa mantinha uma casa de compras em Paris, dirigida pessoalmente por ele. O circuito ligava fornecedores europeus, oficinas e compradores brasileiros. Paris não aparecia apenas como palavra prestigiosa impressa num anúncio; fazia parte do abastecimento do negócio. 

O prestígio dos profissionais também era explorado na publicidade. Um anúncio de 1909 apresentava na Raunier um especialista que teria trabalhado para Doucet, Paquin e Laferrière, nomes da moda parisiense. A procedência do conhecimento servia como argumento de venda: a promessa incluía o tecido e o domínio das técnicas capazes de transformá-lo numa roupa desejável. A produção local permitia aproximar modelos estrangeiros das encomendas feitas no Rio, preservando a experiência da escolha e do ajuste que havia sustentado a reputação da antiga alfaiataria. 

As mercadorias se diversificaram. Além das roupas, a publicidade oferecia artigos para presentes, como porta-joias, peças de cristal e objetos de mesa. O estabelecimento procurava participar de mais ocasiões da vida doméstica e social, fazendo com que uma compra conduzisse a outra seção. O cliente que conhecera o nome por causa de uma casaca podia reencontrá-lo na escolha de um presente; a casa ampliava o alcance de sua reputação sem abandonar o vocabulário da qualidade e da distinção. 

Uma das peças publicitárias mais expressivas sobrevive no acervo disponibilizado pelo Instituto Piano Brasileiro. Trata-se da valsa “A Casa Raunier”, de Alice da Motta Pereira, cuja capa traz a indicação “Carnaval 1911”, uma figura feminina entre flores e uma representação do grande edifício. Abaixo, a empresa apresenta sua promessa: “Na Casa Raunier tudo é superior e relativamente mais barato.” A escolha do advérbio é reveladora. O apelo ao preço convivia com a defesa de uma qualidade superior; a casa procurava vender a ideia de vantagem sem renunciar à condição de estabelecimento elegante. 

A operação paulista também deixou documentos que permitem sair do terreno das imagens promocionais. O Centro de Memória da Unicamp conserva recibos da Casa Raunier relativos a compras e serviços prestados a Adolpho Affonso da Silva Gordo, senador e figura importante da política de São Paulo. Esses papéis registram o lado ordinário de uma relação comercial prestigiosa: datas, pagamentos e encomendas. A história de um magazine também se compõe desse material aparentemente pequeno, que permite reconhecer seus clientes sem depender apenas da fama que a própria empresa anunciava. 

Quando a saia-calção virou caso de polícia

Em março de 1911, uma novidade da seção feminina levou a Raunier para muito além das páginas de publicidade. A exibição da jupe-culotte, chamada de saia-calção, reuniu uma multidão diante do estabelecimento. Marie Lespinasse, responsável pelos ateliês, apresentou-se com o traje; entre aplausos, vaias e agitação, a polícia precisou intervir. Um vendedor foi preso por estimular o público, enquanto a modista recebeu proteção para alcançar um automóvel. A pesquisa de Guilherme Domingues Gonçales, na USP, reconstitui o episódio a partir da imprensa e da fotografia da aglomeração publicada pela Careta de 25 de março de 1911.

A inovação da saia-calção deu mesmo o que falar
A inovação da saia-calção deu mesmo o que falar - Reprodução Revista Fon-Fon

As fotografias tornam o espanto daquele momento especialmente eloquente. O traje era comprido, acompanhado de mangas, chapéu e acabamento elaborado. Na i, a abertura da parte inferior permite perceber a calça sob o conjunto. Aos olhos atuais, a roupa impressiona muito mais pelo recato do que pela ousadia. A reação ajuda a compreender que a controvérsia não se resumia à quantidade de pele exposta: uma alteração na estrutura da roupa bastava para deslocar o debate da vitrine para o comportamento de quem a usava. 

Imagem publicada por O Malho
Imagem publicada por O Malho - Reprodução

 

A revista tomou partido contra a hostilidade da rua. Sob o título “Selvagerias da capital federal”, apresentou uma fotografia cuja legenda identificava Lespinasse como mestra da Casa Raunier e destacou que ela estava “tão elegante e decentemente vestida”. O texto censurava os rapazes que a haviam vaiado e impedido de ir almoçar num restaurante vizinho. Ao descrever a mobilização policial, recorria ao sarcasmo para diminuir a importância do suposto escândalo. A violência do constrangimento não é, portanto, uma leitura imposta retrospectivamente: já era denunciada por uma publicação contemporânea ao episódio. 

O humor também procurava desfazer o caráter extraordinário da novidade. Num comentário ilustrado intitulado “A nova moda”, a saia-calção era comparada às bombachas usadas pelos gaúchos. A argumentação lembrava que até figuras políticas do Rio Grande do Sul vestiam aquela peça, concluindo que não havia novidade absoluta no modelo celebrado como importação europeia. A comparação era uma maneira de aproximar o figurino do repertório brasileiro e de ironizar o espanto produzido por uma roupa que, sob outras formas e em outros corpos, já pertencia ao cotidiano. 

A Raunier procurou conciliar a repercussão com sua imagem respeitável. Os diretores receberam jornalistas e defenderam a discrição de seus modelos, nos quais a saia cobria a calça. Lespinasse tampouco propunha substituir todo o guarda-roupa feminino: numa entrevista, apresentou a peça como adequada a passeios e visitas, sem destronar o vestido de baile. A novidade era oferecida dentro de limites cuidadosamente enunciados, preservando a autoridade da casa sobre as conveniências de cada ocasião. 

A Fon-Fon! deu ao assunto uma página intitulada “A Victoria da Jupe-Culotte”. Nas fotografias, as legendas identificam Lespinasse e Marcelle Dolbeau nos ateliês da firma, exibindo a nova moda. As cadeiras, os tecidos acumulados e o tapete ajudam a devolver à cena seu ambiente de trabalho e apresentação comercial. A roupa aparece de pé e sentada, permitindo observar seu caimento. Ao mostrar as profissionais dentro do estabelecimento, a página associava a novidade a pessoas, oficinas e um endereço reconhecível. 

A saia “jupe-culotte”, que os “malandros” acusavam de parecer bombachas gaúchas
A saia “jupe-culotte”, que os “malandros” acusavam de parecer bombachas gaúchas - Reprodução “O Malho”

A repercussão encontrou ainda uma expressão musical. Preservada pela Casa do Choro, a polca “Jupe-culotte”, de J. F. Fonseca Costa, traz na capa uma homenagem à Raunier e uma fotografia que a legenda identifica como Lespinasse usando uma criação de sua confecção. Na mesma composição gráfica, anuncia-se a serge-perlée, tecido de seda e lã indicado para a saia-calção; numa página da música, aparece publicidade de pó perfumado para o rosto. A publicação reunia o figurino controverso, a profissional que o apresentava e as mercadorias disponíveis para quem desejasse aderir à novidade. 

Quem trabalhava para vestir a cidade

A notoriedade de Lespinasse permite enxergar algo que as fachadas monumentais frequentemente escondem: a importância de quem confeccionava, ajustava e vendia as roupas. Outra trajetória ligada às oficinas foi a de Béatrix Reynal, nome literário de Marcelle Jaulent. Uma pesquisa de doutorado de Caroline Aparecida Guebert, na UFSC, registra seu trabalho como costureira da Raunier antes da projeção nos meios artísticos e literários cariocas. O período exato desse emprego não está estabelecido, mas a passagem pela casa aparece na documentação biográfica estudada. 

Na entrega das encomendas surge um nome que mais tarde teria enorme popularidade: Orlando Silva. Antes de se tornar o Cantor das Multidões, trabalhou levando mercadorias da casa aos compradores, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. A presença do futuro cantor entre seus trabalhadores amplia o retrato do estabelecimento. A Raunier se relacionava com a cidade tanto pela roupa usada por um cliente ilustre quanto pelo percurso de um entregador, pelos serviços de suas oficinas e pelas oportunidades de trabalho que oferecia. 

A vida da casa depois da fase monumental

Anúncio da Casa Raunier
Anúncio da Casa Raunier - Reprodução

A transformação do negócio começou antes que seu nome desaparecesse daquele ponto da Uruguaiana. Em 1919, A Noite informou que parte do prédio seria cedida à Sloper & Irmãos - a Casa Sloper. O sentido da notícia era claro: a Raunier reduziria o espaço ocupado, sem encerrar suas atividades. A chegada de outra grande casa comercial não representou, portanto, uma substituição instantânea. Durante a transição, o edifício comportou uma reorganização de seus usos e ocupantes.  Foi feita uma enorme liquidação do departamento de chapéus, junto com outros, gerando espaço para a nova inquilina, que ali permaneceria até os anos 90, chegando até mesmo a comprar o prédio inteiro, derrubá-lo e erguer uma majestosa sede em estilo art Déco onde hoje existe o Edifício Sloper Corporate

As campanhas de liquidação também precisam ser lidas pelo que efetivamente anunciavam. Em 1926, a expressão “liquidação definitiva” aparecia vinculada às seções de fazendas, armarinho e roupas brancas. Não era um aviso inequívoco do fechamento de toda a empresa. A publicidade posterior confirma a continuidade: em 1930, a designação Caillaux Raunier aparece funcionando na Rua do Ouvidor 89, mantendo a referência à fundação em 1855 e oferecendo camisaria, artigos masculinos e roupas brancas para senhoras, cama e mesa. O mesmo anúncio informa a existência de filial na Rua São Bento, em São Paulo. 

A casa havia deixado de depender do palácio - vendido à Sloper -  para continuar existindo. O Almanak Laemmert de 1935 ainda a relaciona na Ouvidor 89, oitenta anos depois da fundação. A data exata do encerramento definitivo não está estabelecida pela documentação localizada, mas sua trajetória alcança os registros comerciais de meados daquela década. Na Uruguaiana 55, o destino do endereço seguiria ligado aos grandes magazines: a Sloper marcou a etapa seguinte e, muito mais tarde, a Leader ocupou o ponto. Essa sucessão preservou a vocação comercial do lugar, não a arquitetura dos torreões. 

Ao percorrer hoje a Ouvidor e alcançar a antiga Travessa do Rosário, a perda mais evidente está acima da linha dos olhos. Desapareceu o edifício que transformava uma compra em passagem por um pequeno palácio; permaneceu, dispersa em romances, recibos, anúncios e fotografias, a vida que ele abrigou. Júlia Lopes de Almeida escreveu que aquela era “uma casa a que a cidade deve querer bem”. A observação conserva sua força depois do desaparecimento da loja. Recuperar a memória da Raunier é devolver à caminhada pelo Centro uma parte de sua densidade: reconhecer, numa esquina apressada, o trabalho, a beleza e as ambições de gerações que fizeram daquele comércio um acontecimento da cidade. 

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.