Início Histórias do Rio de Janeiro A Brazileira: quando três sobrados do Largo de São Francisco ajudavam...

Comércio Histórico

A Brazileira: quando três sobrados do Largo de São Francisco ajudavam a vestir o Rio

Instalada nos números 38, 40 e 42 do Largo de São Francisco de Paula, com salões interligados, ateliers de costura, alfaiataria e departamentos que iam da moda parisiense aos brinquedos e à perfumaria, A Brazileira foi uma das grandes casas comerciais do Centro nas primeiras décadas do século XX

Fachada de A Brazileira no Largo de São Francisco de Paula, 42 - Foto restaurada e colorizada por IA

Quem hoje atravessa o Largo de São Francisco de Paula ainda encontra alguns elementos capazes de estabelecer uma ligação imediata com o Rio antigo. A igreja permanece presidindo um dos lados da praça, José Bonifácio continua no alto de seu monumento e, poucos passos adiante, o Real Gabinete Português de Leitura conserva uma das fachadas mais extraordinárias da cidade. O casario comercial, entretanto, conta outra história. Onde no início do século XX se sucediam sobrados ocupados por lojas, ateliers e armazéns, ergueram-se edifícios modernos de escritórios, e os nomes que faziam parte do vocabulário cotidiano dos cariocas desapareceram das fachadas. Um dos mais conhecidos era A Brazileira, grande casa de modas e fazendas que chegou a ocupar, de forma integrada, três prédios do largo.

A fotografia mais conhecida do estabelecimento é uma pequena aula sobre o comércio carioca daquele tempo. A fachada dos Armazéns da A Brazileira aparece quase inteiramente coberta por publicidade: “Grande Venda Annual”, “Grandes Saldos”, “Preços Sensacionaes”, descontos de 25% a 40%. Os anúncios descem do coroamento dos sobrados para as sacadas e chegam às portas da loja, enquanto a calçada permanece tomada por fregueses, empregados e passantes. O conjunto tinha a monumentalidade que o comércio procurava conquistar não pela construção de um único palácio, mas pela apropriação sucessiva dos imóveis vizinhos, reunidos internamente até se transformarem num grande magazine.

Anúncio Colorizado de A Brazileira, 1914
Anúncio Colorizado de A Brazileira, 1914 - Reprodução
]

Os registros comerciais permitem acompanhar parte dessa expansão. Em 1906, o Almanak Laemmert relacionava Gaspar Pacheco & C. a A Brazileira, então indicada no Largo de São Francisco de Paula nº 24. A sociedade reunia Gaspar José Rodrigues Pacheco, José Mendes de Vasconcellos, Felix Guimarães e José Maria Neves de Castro. Alguns anos depois, os Armazéns da Brazileira aparecem associados à firma Vasconcellos, Castro & C., nomes que já estavam presentes na composição anterior. Mais do que uma simples sucessão de letreiros, os registros revelam a continuidade de personagens envolvidos na exploração de uma casa que crescia ao mesmo tempo em que o Centro se consolidava como o grande território do consumo carioca.

Em 1916, a dimensão alcançada pelo estabelecimento aparece com excepcional clareza em sua própria publicidade. Os números 38 e 40 reuniam seções de roupas brancas para senhoras e crianças, cintas, roupas para homens e artigos infantis. O nº 42, expressamente descrito como prédio contíguo e com comunicação interna com os anteriores, abrigava tecidos, tapetes, artigos de cama e mesa e armarinho. No primeiro andar funcionavam ainda dois ateliers: um de costura, dirigido por Mme. Laura Sanz, e outro dedicado aos tailleurs femininos, chefiado por Gilberto Silva. A Brazileira era, portanto, um conjunto de três sobrados transformados por dentro em uma única casa comercial, antecipando em escala carioca o princípio dos grandes magazines europeus.

 

Essa organização ajuda a compreender o que significava fazer compras no Centro naquele período. Não se tratava apenas de entrar numa loja, pedir uma peça ao balconista e voltar à rua. A freguesa podia percorrer departamentos, subir ao primeiro andar, escolher tecidos, encomendar uma roupa e recorrer aos profissionais mantidos pela própria casa. A publicidade oferecia vestidos, roupas infantis e masculinas, roupas de cama e mesa, meias, armarinhos, perfumaria, brinquedos e materiais destinados a modistas, floristas, chapeleiras, bordadeiras e alfaiates. A variedade transformava A Brazileira num destino de compras e ajudava a explicar por que estabelecimentos dessa natureza exerciam sobre o cotidiano carioca uma influência muito maior do que a de uma simples loja especializada.

A moda ocupava posição privilegiada nesse universo. A Brazileira anunciava novidades parisienses e procurava associar o endereço do Largo de São Francisco à elegância internacional que as revistas ilustradas apresentavam às mulheres cariocas. Em uma de suas propagandas, oferecia “vestidos elegantíssimos” e as “últimas novidades da elegância parisiense” para passeio, baile e teatro, convidando as freguesas a visitar a exposição instalada no primeiro andar. O anúncio é especialmente revelador porque mostra como a casa procurava vender não apenas a peça de roupa, mas um repertório social: havia um traje adequado para caminhar pela cidade, outro para frequentar os salões e outro para uma noite de espetáculo.

A importância dada à confecção tornou-se ainda mais evidente na grande reabertura de 1918. A Brazileira anunciou ao público carioca seus novos salões, descritos como amplos, iluminados e confortáveis, onde se encontrariam tecidos modernos, vestidos de grande toilette e artigos de moda. A propaganda afirmou que mais de 10 mil pessoas haviam visitado a casa no dia da reabertura, cifra divulgada pelo próprio estabelecimento e que, independentemente de seu evidente caráter promocional, demonstra a dimensão que os proprietários pretendiam atribuir ao acontecimento. Naquele momento, o atelier de confecções estava entregue a Mme. Maud, a alfaiataria era dirigida por José Poltano e Gilberto Silva permanecia à frente dos tailleurs pour dames.

A publicidade da casa acompanhava as transformações da imprensa ilustrada. Em janeiro de 1919, A Brazileira publicou na revista Careta fotografias de seus próprios setores internos, recurso ainda menos frequente do que a ilustração desenhada nos anúncios daquele período. O historiador Cláudio de Sá Machado Júnior, que estudou o emprego da fotografia pela revista entre 1919 e 1922, identificou as peças nas edições de 18 e 25 de janeiro. A chamada escolhida pelo magazine condensava com inteligência o objetivo da campanha: “A photographia vos dá uma idéa? Vinde ver a realidade.” Na edição seguinte, a casa insistia que a imagem fornecia apenas uma “pálida ideia” do estabelecimento e convidava o leitor a visitar pessoalmente o Largo de São Francisco.

A modernidade pretendida por A Brazileira também aparecia na escolha das mercadorias e na maneira de anunciá-las. Em outubro de 1921, propagandas publicadas na Fon-Fon! e na Careta ofereciam “crepon japonez para Kimonos”, a 5$400 o metro. As peças publicitárias utilizavam mulheres vestidas segundo a imagem ocidental do quimono e elementos decorativos associados ao Japão, aproveitando o japonismo que há décadas influenciava as artes e a moda europeias e que chegava ao público brasileiro por revistas, exposições e mercadorias. A historiadora Marília Luíza Ramos da Cruz, em dissertação apresentada à UERJ, recuperou os dois anúncios ao estudar as representações do Japão na imprensa ilustrada carioca.

Anúncio Colorizado de A Brazileira, na revista A Maçã
Anúncio Colorizado de A Brazileira, na revista A Maçã - Reprodução

A casa também alcançou, por caminhos inesperados, outros capítulos da história carioca. Uma pesquisa de Walmer Peres Santana sobre a consolidação do Club de Regatas Vasco da Gama encontrou, entre os remadores relacionados em 30 de junho de 1904, o português Luiz de Carvalho Silva, de 28 anos. Sua profissão aparece registrada como empregado de balcão de Gaspar Pacheco & C., firma de armarinhos estabelecida no Largo de São Francisco de Paula nº 24 e associada a A Brazileira. O jovem comerciário era remador junior do Vasco, pequeno registro biográfico que permite enxergar, por trás das fotografias elegantes e dos grandes anúncios, um dos homens que efetivamente trabalhavam nos balcões daquela casa.

A Brazileira acabaria incorporada até à representação artística do Largo de São Francisco. Em uma pintura de Aurora Cursino dos Santos, apresentada pela 35ª Bienal de São Paulo como uma cena provavelmente ambientada naquele largo, o monumento a José Bonifácio permite reconhecer o espaço urbano e, ao fundo, lê-se o nome da loja numa das fachadas. A cena é noturna e tem como figura principal uma mulher interpretada pela Bienal como prostituta. A presença do letreiro comercial no quadro é significativa: A Brazileira já não aparece apenas como estabelecimento a ser anunciado, mas como elemento suficientemente característico da paisagem para ajudar a identificar um pedaço da cidade.

O gosto pelas grandes vendas, que domina a célebre fotografia da fachada, acompanhou a casa durante sua trajetória documentada. Em 30 de dezembro de 1926, O Imparcial ainda anunciava A Brazileira no Largo de São Francisco, 38–42, em plena campanha comercial. A “Grande Venda” oferecia bonificações e brindes relacionados ao valor das compras, mantendo uma prática que já fazia parte da identidade do estabelecimento. O recurso era simples e eficaz: a arquitetura servia de suporte à propaganda, as promoções criavam acontecimentos periódicos e o próprio nome da loja tornava-se familiar a quem circulava diariamente pelo largo.

Anúncio de A Brazileira na revista O Malho, 1919
Anúncio de A Brazileira na revista O Malho, 1919 - Reprodução

A localização ajuda a dimensionar o que esse comércio representava. A Brazileira pertencia ao mesmo Centro em que prosperavam Casa Raunier e A Notre Dame de Paris, casas que disputavam fregueses, acompanhavam a moda europeia e ajudavam a transformar determinadas ruas numa sucessão de endereços conhecidos por toda a cidade. A proximidade entre elas fazia com que uma caminhada relativamente curta atravessasse diferentes mundos comerciais: alfaiatarias, casas de moda, armarinhos, confeitarias, cafés, livrarias e magazines conviviam com igrejas, repartições, redações de jornais e escritórios. Era precisamente essa acumulação de usos, personagens e estabelecimentos que dava ao Centro a espessura humana descrita pelos memorialistas do velho Rio.

O contraste com o Largo de São Francisco contemporâneo é particularmente expressivo porque o endereço permanece, mas sua relação com a cidade mudou. O nº 42 é hoje um edifício comercial moderno de fachada espelhada, integrante de uma paisagem em que prédios de escritórios substituíram boa parte do antigo casario comercial. A transformação não significou somente a troca de uma arquitetura por outra. Com os sobrados desapareceram também os ateliers nos pavimentos superiores, a sequência de portas voltadas para a calçada, os departamentos ligados internamente e aquela concentração de atividades que mantinha o prédio em comunicação permanente com a rua. Ao lado, na esquina com Andradas, funcionou por décadas a ótica Lutz Ferrando, que foi substituída depois pela Kalunga, e hoje o prédio se encontra vazio, após um retrofit.

Anúncio de A Brazileira na revista Careta, 1912
Anúncio de A Brazileira na revista Careta, 1912 - Reprodução

É essa perda que as fotografias de A Brazileira tornam tão visível. O Centro do Rio conserva monumentos extraordinários, mas perdeu grande parte do tecido cotidiano que existia entre eles. Uma igreja, uma estátua ou um edifício excepcional ajudam a preservar a imagem de uma época; as lojas, porém, guardavam seus hábitos. Eram elas que determinavam percursos, criavam pontos de encontro, introduziam modas e faziam gerações repetirem os mesmos nomes ao planejar uma compra. A Brazileira, a Casa Raunier e A Notre Dame de Paris - entre outras - pertenciam a essa geografia afetiva e comercial, na qual uma casa adquiria prestígio durante décadas até tornar-se parte da própria identidade de uma rua.

Do lado direito, vê-se A Brazileira em liquidação, pertinho da UFRJ, no Largo de São Francisco, 42
Do lado direito, vê-se A Brazileira em liquidação, pertinho da UFRJ, no Largo de São Francisco, 42 - Reprodução

Nas fotografias antigas, o Largo de São Francisco parece cheio não apenas porque havia muita gente. Ele parece cheio porque havia muitas razões para estar ali. A Brazileira ocupava três sobrados, anunciava a moda de Paris, mantinha costureiras e alfaiates, fotografava seus salões para as revistas e cobria a fachada de cartazes quando chegava a época dos saldos. A cidade moderna ganhou edifícios maiores, escritórios e outras formas de comércio, mas perdeu boa parte dessas casas capazes de transformar um endereço em instituição. No Largo de São Francisco, os números sobreviveram. A Brazileira, que durante décadas lhes deu significado, ficou nas fotografias, nos anúncios e na memória de um Centro que já foi uma das grandes vitrines do Rio de Janeiro.

A Brazileira, no Largo de São Francisco
A Brazileira, no Largo de São Francisco - Reprodução

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.