Quem hoje atravessa o Largo de São Francisco de Paula ainda encontra alguns elementos capazes de estabelecer uma ligação imediata com o Rio antigo. A igreja permanece presidindo um dos lados da praça, José Bonifácio continua no alto de seu monumento e, poucos passos adiante, o Real Gabinete Português de Leitura conserva uma das fachadas mais extraordinárias da cidade. O casario comercial, entretanto, conta outra história. Onde no início do século XX se sucediam sobrados ocupados por lojas, ateliers e armazéns, ergueram-se edifícios modernos de escritórios, e os nomes que faziam parte do vocabulário cotidiano dos cariocas desapareceram das fachadas. Um dos mais conhecidos era A Brazileira, grande casa de modas e fazendas que chegou a ocupar, de forma integrada, três prédios do largo.
A fotografia mais conhecida do estabelecimento é uma pequena aula sobre o comércio carioca daquele tempo. A fachada dos Armazéns da A Brazileira aparece quase inteiramente coberta por publicidade: “Grande Venda Annual”, “Grandes Saldos”, “Preços Sensacionaes”, descontos de 25% a 40%. Os anúncios descem do coroamento dos sobrados para as sacadas e chegam às portas da loja, enquanto a calçada permanece tomada por fregueses, empregados e passantes. O conjunto tinha a monumentalidade que o comércio procurava conquistar não pela construção de um único palácio, mas pela apropriação sucessiva dos imóveis vizinhos, reunidos internamente até se transformarem num grande magazine.
Os registros comerciais permitem acompanhar parte dessa expansão. Em 1906, o Almanak Laemmert relacionava Gaspar Pacheco & C. a A Brazileira, então indicada no Largo de São Francisco de Paula nº 24. A sociedade reunia Gaspar José Rodrigues Pacheco, José Mendes de Vasconcellos, Felix Guimarães e José Maria Neves de Castro. Alguns anos depois, os Armazéns da Brazileira aparecem associados à firma Vasconcellos, Castro & C., nomes que já estavam presentes na composição anterior. Mais do que uma simples sucessão de letreiros, os registros revelam a continuidade de personagens envolvidos na exploração de uma casa que crescia ao mesmo tempo em que o Centro se consolidava como o grande território do consumo carioca.
Em 1916, a dimensão alcançada pelo estabelecimento aparece com excepcional clareza em sua própria publicidade. Os números 38 e 40 reuniam seções de roupas brancas para senhoras e crianças, cintas, roupas para homens e artigos infantis. O nº 42, expressamente descrito como prédio contíguo e com comunicação interna com os anteriores, abrigava tecidos, tapetes, artigos de cama e mesa e armarinho. No primeiro andar funcionavam ainda dois ateliers: um de costura, dirigido por Mme. Laura Sanz, e outro dedicado aos tailleurs femininos, chefiado por Gilberto Silva. A Brazileira era, portanto, um conjunto de três sobrados transformados por dentro em uma única casa comercial, antecipando em escala carioca o princípio dos grandes magazines europeus.
Essa organização ajuda a compreender o que significava fazer compras no Centro naquele período. Não se tratava apenas de entrar numa loja, pedir uma peça ao balconista e voltar à rua. A freguesa podia percorrer departamentos, subir ao primeiro andar, escolher tecidos, encomendar uma roupa e recorrer aos profissionais mantidos pela própria casa. A publicidade oferecia vestidos, roupas infantis e masculinas, roupas de cama e mesa, meias, armarinhos, perfumaria, brinquedos e materiais destinados a modistas, floristas, chapeleiras, bordadeiras e alfaiates. A variedade transformava A Brazileira num destino de compras e ajudava a explicar por que estabelecimentos dessa natureza exerciam sobre o cotidiano carioca uma influência muito maior do que a de uma simples loja especializada.
A moda ocupava posição privilegiada nesse universo. A Brazileira anunciava novidades parisienses e procurava associar o endereço do Largo de São Francisco à elegância internacional que as revistas ilustradas apresentavam às mulheres cariocas. Em uma de suas propagandas, oferecia “vestidos elegantíssimos” e as “últimas novidades da elegância parisiense” para passeio, baile e teatro, convidando as freguesas a visitar a exposição instalada no primeiro andar. O anúncio é especialmente revelador porque mostra como a casa procurava vender não apenas a peça de roupa, mas um repertório social: havia um traje adequado para caminhar pela cidade, outro para frequentar os salões e outro para uma noite de espetáculo.
A importância dada à confecção tornou-se ainda mais evidente na grande reabertura de 1918. A Brazileira anunciou ao público carioca seus novos salões, descritos como amplos, iluminados e confortáveis, onde se encontrariam tecidos modernos, vestidos de grande toilette e artigos de moda. A propaganda afirmou que mais de 10 mil pessoas haviam visitado a casa no dia da reabertura, cifra divulgada pelo próprio estabelecimento e que, independentemente de seu evidente caráter promocional, demonstra a dimensão que os proprietários pretendiam atribuir ao acontecimento. Naquele momento, o atelier de confecções estava entregue a Mme. Maud, a alfaiataria era dirigida por José Poltano e Gilberto Silva permanecia à frente dos tailleurs pour dames.
A publicidade da casa acompanhava as transformações da imprensa ilustrada. Em janeiro de 1919, A Brazileira publicou na revista Careta fotografias de seus próprios setores internos, recurso ainda menos frequente do que a ilustração desenhada nos anúncios daquele período. O historiador Cláudio de Sá Machado Júnior, que estudou o emprego da fotografia pela revista entre 1919 e 1922, identificou as peças nas edições de 18 e 25 de janeiro. A chamada escolhida pelo magazine condensava com inteligência o objetivo da campanha: “A photographia vos dá uma idéa? Vinde ver a realidade.” Na edição seguinte, a casa insistia que a imagem fornecia apenas uma “pálida ideia” do estabelecimento e convidava o leitor a visitar pessoalmente o Largo de São Francisco.
A modernidade pretendida por A Brazileira também aparecia na escolha das mercadorias e na maneira de anunciá-las. Em outubro de 1921, propagandas publicadas na Fon-Fon! e na Careta ofereciam “crepon japonez para Kimonos”, a 5$400 o metro. As peças publicitárias utilizavam mulheres vestidas segundo a imagem ocidental do quimono e elementos decorativos associados ao Japão, aproveitando o japonismo que há décadas influenciava as artes e a moda europeias e que chegava ao público brasileiro por revistas, exposições e mercadorias. A historiadora Marília Luíza Ramos da Cruz, em dissertação apresentada à UERJ, recuperou os dois anúncios ao estudar as representações do Japão na imprensa ilustrada carioca.
A casa também alcançou, por caminhos inesperados, outros capítulos da história carioca. Uma pesquisa de Walmer Peres Santana sobre a consolidação do Club de Regatas Vasco da Gama encontrou, entre os remadores relacionados em 30 de junho de 1904, o português Luiz de Carvalho Silva, de 28 anos. Sua profissão aparece registrada como empregado de balcão de Gaspar Pacheco & C., firma de armarinhos estabelecida no Largo de São Francisco de Paula nº 24 e associada a A Brazileira. O jovem comerciário era remador junior do Vasco, pequeno registro biográfico que permite enxergar, por trás das fotografias elegantes e dos grandes anúncios, um dos homens que efetivamente trabalhavam nos balcões daquela casa.
A Brazileira acabaria incorporada até à representação artística do Largo de São Francisco. Em uma pintura de Aurora Cursino dos Santos, apresentada pela 35ª Bienal de São Paulo como uma cena provavelmente ambientada naquele largo, o monumento a José Bonifácio permite reconhecer o espaço urbano e, ao fundo, lê-se o nome da loja numa das fachadas. A cena é noturna e tem como figura principal uma mulher interpretada pela Bienal como prostituta. A presença do letreiro comercial no quadro é significativa: A Brazileira já não aparece apenas como estabelecimento a ser anunciado, mas como elemento suficientemente característico da paisagem para ajudar a identificar um pedaço da cidade.
O gosto pelas grandes vendas, que domina a célebre fotografia da fachada, acompanhou a casa durante sua trajetória documentada. Em 30 de dezembro de 1926, O Imparcial ainda anunciava A Brazileira no Largo de São Francisco, 38–42, em plena campanha comercial. A “Grande Venda” oferecia bonificações e brindes relacionados ao valor das compras, mantendo uma prática que já fazia parte da identidade do estabelecimento. O recurso era simples e eficaz: a arquitetura servia de suporte à propaganda, as promoções criavam acontecimentos periódicos e o próprio nome da loja tornava-se familiar a quem circulava diariamente pelo largo.
A localização ajuda a dimensionar o que esse comércio representava. A Brazileira pertencia ao mesmo Centro em que prosperavam Casa Raunier e A Notre Dame de Paris, casas que disputavam fregueses, acompanhavam a moda europeia e ajudavam a transformar determinadas ruas numa sucessão de endereços conhecidos por toda a cidade. A proximidade entre elas fazia com que uma caminhada relativamente curta atravessasse diferentes mundos comerciais: alfaiatarias, casas de moda, armarinhos, confeitarias, cafés, livrarias e magazines conviviam com igrejas, repartições, redações de jornais e escritórios. Era precisamente essa acumulação de usos, personagens e estabelecimentos que dava ao Centro a espessura humana descrita pelos memorialistas do velho Rio.
O contraste com o Largo de São Francisco contemporâneo é particularmente expressivo porque o endereço permanece, mas sua relação com a cidade mudou. O nº 42 é hoje um edifício comercial moderno de fachada espelhada, integrante de uma paisagem em que prédios de escritórios substituíram boa parte do antigo casario comercial. A transformação não significou somente a troca de uma arquitetura por outra. Com os sobrados desapareceram também os ateliers nos pavimentos superiores, a sequência de portas voltadas para a calçada, os departamentos ligados internamente e aquela concentração de atividades que mantinha o prédio em comunicação permanente com a rua. Ao lado, na esquina com Andradas, funcionou por décadas a ótica Lutz Ferrando, que foi substituída depois pela Kalunga, e hoje o prédio se encontra vazio, após um retrofit.
É essa perda que as fotografias de A Brazileira tornam tão visível. O Centro do Rio conserva monumentos extraordinários, mas perdeu grande parte do tecido cotidiano que existia entre eles. Uma igreja, uma estátua ou um edifício excepcional ajudam a preservar a imagem de uma época; as lojas, porém, guardavam seus hábitos. Eram elas que determinavam percursos, criavam pontos de encontro, introduziam modas e faziam gerações repetirem os mesmos nomes ao planejar uma compra. A Brazileira, a Casa Raunier e A Notre Dame de Paris - entre outras - pertenciam a essa geografia afetiva e comercial, na qual uma casa adquiria prestígio durante décadas até tornar-se parte da própria identidade de uma rua.
Nas fotografias antigas, o Largo de São Francisco parece cheio não apenas porque havia muita gente. Ele parece cheio porque havia muitas razões para estar ali. A Brazileira ocupava três sobrados, anunciava a moda de Paris, mantinha costureiras e alfaiates, fotografava seus salões para as revistas e cobria a fachada de cartazes quando chegava a época dos saldos. A cidade moderna ganhou edifícios maiores, escritórios e outras formas de comércio, mas perdeu boa parte dessas casas capazes de transformar um endereço em instituição. No Largo de São Francisco, os números sobreviveram. A Brazileira, que durante décadas lhes deu significado, ficou nas fotografias, nos anúncios e na memória de um Centro que já foi uma das grandes vitrines do Rio de Janeiro.