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O 'sertão carioca': quando a Zona Oeste era feita de engenhos, tropeiros e terras em disputa

Tese de Maria Sarita Cristina Mota revela como a antiga freguesia rural, marcada por sesmarias, engenhos, posseiros, pescadores e lavradores, ajuda a entender a formação da propriedade e os conflitos de terra no Rio de Janeiro

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Projeto do Autódromo de Guaratiba — Foto: Câmara do Rio - Projeto do Autódromo de Guaratiba — Foto: Câmara do Rio

Muito antes de avenidas congestionadas, condomínios, polos industriais e da expansão urbana que transformou a paisagem da Zona Oeste, havia um Rio de Janeiro rural, recortado por engenhos, bananais, caminhos de tropeiros, pescadores, lavradores e pequenas propriedades espalhadas entre mangues, restingas e morros cobertos pela Mata Atlântica. E talvez nenhum lugar simbolize melhor esse passado quase apagado da cidade do que Guaratiba.

Uma extensa tese de doutorado da pesquisadora Maria Sarita Cristina Mota, defendida na UFRRJ e intitulada Nas terras de Guaratiba, mergulha justamente nessa história pouco contada: a da antiga freguesia rural que, durante séculos, ajudou a alimentar o Rio de Janeiro e serviu como palco de disputas ferozes por terras, sesmarias, heranças e posses.  

O trabalho impressiona não apenas pela profundidade da pesquisa documental, mas pela reconstrução quase literária de um mundo desaparecido. A autora percorreu cartórios, processos judiciais, registros de sesmarias, inventários, escrituras e documentos administrativos para reconstituir a história fundiária de Guaratiba entre 1579 e 1889. O resultado revela um Rio rural muito mais complexo, movimentado e socialmente diverso do que normalmente aparece nas narrativas tradicionais sobre a cidade.

Logo nas primeiras páginas, Maria Sarita define o tom da pesquisa ao lembrar que “o conflito é um componente constante na dinâmica que se processa nas relações sociais diante do problema secular do acesso à terra no Brasil”.   A frase, embora acadêmica, ajuda a entender que a tese não fala apenas do passado: ela mostra como muitos conflitos urbanos e fundiários atuais da cidade nasceram ainda no período colonial.

A própria expressão “sertão carioca”, hoje praticamente esquecida, aparece diversas vezes no estudo. O termo havia sido utilizado pelo cronista Magalhães Corrêa para designar justamente essa imensa região rural da cidade do Rio de Janeiro, onde sobreviviam modos de vida agrícolas, pesca artesanal e uma cultura profundamente ligada à terra.  

É difícil imaginar isso hoje, mas Guaratiba já foi uma área estratégica para o abastecimento da capital. Em 1779, a freguesia possuía engenhos de açúcar, engenhocas de aguardente, áreas de produção agrícola e circulação de mercadorias. A tese mostra que a região integrava uma vasta rede econômica rural que sustentava a cidade colonial.  

Entre os aspectos mais fascinantes do trabalho está justamente a recuperação do cotidiano desses antigos habitantes do “sertão” carioca. As ilustrações utilizadas na tese ajudam a visualizar um Rio perdido no tempo: tropeiros conduzindo cargas, pescadores transportando peixes, machadeiros derrubando árvores, vendedores ambulantes, caçadores, puxadas de lenha por caíques e até crianças percorrendo quilômetros para buscar água.  

Há também passagens deliciosamente humanas no texto. A autora relembra sua infância “bucólica, macrobiótica e feliz nas areias da praia da Restinga de Marambaia” e descreve Guaratiba como um lugar de gastronomia simples, relações comunitárias e forte memória afetiva.   Essa dimensão sentimental ajuda a transformar uma pesquisa jurídica sobre propriedade em uma verdadeira narrativa sobre a formação social da Zona Oeste.

Mas talvez a grande descoberta da tese esteja em mostrar que a história da propriedade no Brasil foi muito menos organizada e “legal” do que costuma parecer. Segundo Maria Sarita, desde o período colonial existia uma enorme confusão entre posse e propriedade, algo que ajudou a moldar séculos de conflitos fundiários no país.  

Na prática, muita gente ocupava terras sem documentação perfeita, mas vivendo nelas por décadas, cultivando, produzindo e formando pequenas comunidades. Em muitos casos, a posse vinha antes do papel. Em outros, documentos eram usados para “legalizar o ilegal”, expressão que a autora utiliza ao analisar disputas judiciais envolvendo antigas propriedades da Zona Oeste.  

A tese mostra ainda que o Rio de Janeiro rural foi marcado por uma impressionante fragmentação de propriedades ao longo do século XIX, resultado de heranças, arrendamentos, vendas, ocupações e litígios. Havia fazendeiros poderosos, mas também pequenos posseiros, arrendatários, sitiantes e trabalhadores livres tentando sobreviver numa sociedade profundamente desigual.

Em determinado trecho, a autora afirma que “a história fundiária brasileira pode ser dividida em quatro fases: sesmarias, posses, Lei de Terras e Constituição de 1891”.   A frase pode parecer técnica, mas ajuda a compreender uma questão fundamental: o Brasil nasceu cercado por uma enorme insegurança sobre quem realmente era dono da terra.

Isso ajuda a explicar por que tantos conflitos urbanos da cidade ainda hoje têm raízes antigas. Muitos terrenos da Zona Oeste carregam cadeias dominiais confusas, sobreposições históricas de registros e heranças jurídicas que remontam ao período colonial. A autora chega a afirmar que encontrou processos administrativos recheados de documentos históricos utilizados para justificar ocupações e reivindicações territoriais contemporâneas.  

Outro aspecto particularmente interessante da pesquisa é a forma como ela desmonta a ideia de que o Rio sempre foi apenas uma cidade urbana e marítima. Durante séculos, boa parte do território carioca viveu essencialmente do campo. O estudo relembra que até meados do século XX as antigas freguesias rurais ainda eram fundamentais para o abastecimento alimentar da cidade.  

Só mais recentemente a expansão industrial e imobiliária começou a transformar radicalmente essa paisagem. A tese lembra, por exemplo, que a instalação de grandes empresas na Zona Oeste, como Michelin e Tupperware, alterou profundamente a dinâmica social e econômica de Guaratiba.  

Talvez o maior mérito do trabalho de Maria Sarita Cristina Mota seja justamente este: recuperar um Rio invisível. Um Rio de lavradores portugueses vindos da Madeira, de pescadores, de bananais, de pequenas estradas enlameadas, de engenhos esquecidos e de conflitos silenciosos pela terra. Um Rio muito distante da imagem monumental da Avenida Central, dos palácios imperiais ou da Belle Époque tropical que costuma dominar o imaginário da cidade.

Ao final da leitura, fica a sensação de que a Zona Oeste carioca não foi apenas periferia da cidade: durante muito tempo, ela foi uma de suas bases mais importantes. E talvez compreender esse passado seja também uma forma de entender melhor os dilemas urbanos, sociais e fundiários do Rio de Janeiro contemporâneo.

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.