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O som do amolador sumiu das ruas do Rio: os ruídos do Rio antigo que desapareceram da cidade

Pesquisa da UFRJ relembra profissões que davam identidade sonora ao Rio de Janeiro — do apito do amolador às máquinas das chapelarias e oficinas artesanais espalhadas pelo Centro e pela Zona Sul

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Antigo prédio da escola Eletrotécnica da UFRJ, localizada na praça da República, 22. | Foto: Rafa Pereira - Diário do Rio - Antigo prédio da escola Eletrotécnica da UFRJ, localizada na praça da República, 22. | Foto: Rafa Pereira - Diário do Rio

O Rio de Janeiro já teve sons que definiam a vida cotidiana da cidade. Muito antes dos aplicativos de entrega, do trânsito permanente e dos celulares tocando dentro do metrô, a cidade possuía uma espécie de trilha sonora própria: o apito do amolador de facas atravessando as ruas do Flamengo, o ruído metálico das oficinas do Centro, o compasso das máquinas de costura das chapelarias e o vai-e-vem dos pequenos ofícios artesanais espalhados pelos bairros cariocas.

Boa parte dessa paisagem sonora praticamente desapareceu. E é justamente essa memória que reaparece de forma fascinante no trabalho “Profissões em Extinção: Três Retratos”, desenvolvido na UFRJ por Gisele de Araújo Lopes e Milla Monteiro.  

As autoras explicam que o objetivo não era apenas falar do desaparecimento de certas profissões, mas registrar “toda a beleza do processo de produção manual”, em que “o barulho das máquinas” também se transformava em contador de histórias.  

Entre os personagens retratados estava Seu Hilmo, um amolador de facas que percorria diariamente as ruas do Flamengo. A pesquisa descreve o impacto visual e sonoro daquele personagem caminhando pelas ruas cariocas, procurando clientes enquanto carregava seus equipamentos pelas calçadas do bairro.  

Durante décadas, o som do amolador fez parte da rotina doméstica do Rio. Bastava ouvi-lo ao longe para que moradores corressem até o portão com facas, tesouras e instrumentos que precisavam ser afiados. Era uma cidade onde os serviços ainda vinham até a porta das casas e em que muitos trabalhadores sobreviviam exclusivamente da circulação pelas ruas.

Outro universo sonoro retratado pela pesquisa era o da Chapelaria Porto, instalada num velho sobrado próximo à Central do Brasil. O texto registra o ruído constante das máquinas de costura, dos telefones tocando e da movimentação intensa de clientes entrando e saindo da loja.  

A própria localização da chapelaria ajuda a compor a atmosfera do Rio antigo. As autoras descrevem o sobrado do Centro como um cenário que “compunha muito bem o tema”.   E realmente compõe: poucas coisas parecem mais cariocas do que um velho comércio sobrevivente instalado num sobrado apertado da região da Central.

Há ainda o universo das pequenas oficinas domésticas, como a do ourives em Vigário Geral. O trabalho descreve a preocupação em captar não apenas as entrevistas, mas também os sons das pequenas máquinas usadas na produção manual das joias.  

O mais curioso é perceber como a modernização da cidade não eliminou apenas profissões: ela eliminou também sons, ritmos e hábitos urbanos inteiros. O Rio perdeu o assobio do amolador, os fotógrafos lambe-lambe das praças, os vendedores de enciclopédia, os técnicos de máquina de escrever e inúmeros outros personagens que davam personalidade às ruas cariocas.  

A pesquisa da UFRJ acaba funcionando, sem querer, como uma cápsula sonora do Rio antigo. Um Rio onde o trabalho manual ainda tinha espaço, onde as oficinas eram pequenas, onde os comerciantes conheciam os clientes pelo nome e onde a cidade produzia sons que hoje sobreviveram apenas na memória dos mais velhos.

Talvez por isso o desaparecimento desses ofícios provoque tanta nostalgia. Quando some o som de uma profissão, desaparece junto um pedaço da própria cidade.

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.