A eleição para o Senado costuma ficar em segundo plano. A disputa pela Presidência domina o debate, a campanha para governador mobiliza o estado e os candidatos a deputado estão mais próximos das bases eleitorais. O senador acaba escolhido com menos atenção do que merece um político que vai representar o Estado em Brasília por um extenso mandato de oito anos. E o Rio de Janeiro conhece o preço dessa distração.
Neste ano, o eleitor poderá escolher dois senadores. Há opções em diferentes campos políticos: à esquerda, Benedita da Silva (PT) e Mônica Benício (PSOL); ao centro, Pedro Paulo (PSD); entre os conservadores, Carlos Jordy (PL) e Carlos Portinho (PL). Não falta alternativa para quem deseja votar de acordo com suas convicções ideológicas, por mais que o Senador deva defender o Rio, e não uma posição política cega qualquer - destra ou canhota.
É justamente por isso que é custoso entender a escolha de qualquer pessoa por Marcelo Crivella (Republicanos). Na avaliação corrente de 8 entre 10 cariocas, ele foi o pior prefeito que o Rio já teve. Sua passagem desastrosa e funesta pelo comando (?) da cidade deveria pesar muito mais na decisão de quem cogita lhe entregar mais oito anos em Brasília. Entrincheirado na Barra da Tijuca, sequer vinha à Prefeitura.
O abandono sentido pelos cariocas durante aqueles quatro anos não pode desaparecer da memória eleitoral. A destruição por ele operada do BRT é um dos exemplos mais visíveis: a deterioração do sistema exigiu uma ampla recuperação na gestão de Eduardo Paes (PSD). Quem dependia daquele transporte para trabalhar sabe que não se tratava apenas de uma disputa de versões entre adversários.
A condução da pandemia pelo bispo-prefeito foi um dos retratos mais graves de descontrole administrativo de sua gestão. Enquanto cariocas enfrentavam filas por internação, falta de profissionais, leitos bloqueados e dificuldades até no fornecimento de medicamentos essenciais, a Prefeitura acumulava denúncias sobre gastos milionários, baixa utilização do Hospital de Campanha do Riocentro e suspeitas de irregularidades em contratos de equipamentos hospitalares.
O Ministério Público apontou, inclusive, prejuízo milionário aos cofres públicos e uma suposta comissão de quase R$ 37 milhões destinada a um intermediário ligado à campanha de Crivella. Como se não bastasse o caos no atendimento, a administração ainda protagonizou o escândalo dos chamados “Guardiões do Crivella”, assessores acusados de constranger jornalistas e familiares de pacientes para sufocar denúncias na porta dos hospitais.
Em vez de transmitir competência, transparência e segurança no momento mais dramático da saúde pública recente, a gestão Crivella deixou como marca uma combinação de absoluto colapso assistencial, suspeitas de corrupção e tentativa de controlar politicamente a exposição do desastre. O senso de ridículo não impedia o ex-prefeito de fazer declarações estapafúrdias: chegou a falar em dividir as praias em quadrantes durante a pandemia.
Crivella devolveu o Rio à informalidade caótica. Permitiu a tomada da cidade por camelôs clandestinos e até mesmo as orlas, que eram organizadas desde a Prefeitura de César Maia, foram tomadas pelo câncer da informalidade, junto com as ruas do Centro, Copacabana e de Madureira.
Em seu mandato, monumentos históricos foram destruídos em toda a cidade, a Guarda Municipal virou enfeite e o caos se instalou de forma que não era vista desde os anos 80 na cidade. O patrimônio da cidade era saqueado à vista de todos: somente em 2019 foram registrados, entre outros episódios, o roubo do busto de Imperatriz Teresa Cristina, das grades da Pira Olímpica e da escultura Os Escoteiros; na Praça XV, o monumento ao General Osório chegou ao fim da administração totalmente degradado, pichado e desfalcado de elementos históricos roubados por cracudos, enquanto a praça era retratada ainda em 2018 como suja e abandonada.
A cidade se rendeu à ocupação irregular do espaço público, ao vandalismo e ao abandono de seu patrimônio — um retrocesso urbano de que o Rio ainda não conseguiu se recuperar.
O apoio político não apaga o histórico
Também não convence usar uma eventual bênção da família Bolsonaro como justificativa para o voto. Crivella tem uma trajetória que não cabe nessa embalagem: em 2012, deixou temporariamente o Senado para assumir o Ministério da Pesca e Aquicultura, no governo de Dilma Rousseff, onde permaneceu até 2014. Crivella não tem ideologia, tem no máximo filiação religiosa. Pode apoiar um Bolsonaro num dia e Lula no outro. Sua atuação não tem qualquer lógica fora do assistencialismo e do fisiologismo político e do voto de cabresto evangélico.
Participar de um governo e depois mudar de aliança não é, por si só, uma condenação. Ocorre. Mas esse histórico precisa entrar na conta de quem pretende apresentá-lo como uma escolha de coerência ideológica. A impressão que sua trajetória deixa é a de uma preferência por estar com o governo, seja qual for. E votar em Crivella porque ele apoia Bolsonaro, ou vice-versa, é loucura. Como traiu o PT, trairá quem vier depois: o pau que dá em Chico dá em Flávio.
Há ainda a questão das prioridades. Numa leitura realista, sua atuação política pareceu estar muito mais voltada aos interesses da Igreja Universal do Reino de Deus do que às demandas do conjunto da população. E representar o Rio exige compromisso com todos: integrantes da Universal, fiéis de outras igrejas, pessoas de outras religiões e quem não segue nenhuma.
Sem contar que havia quem imaginasse que justamente para fazer a igreja de Edir Macedo ganhar pontos, Crivella faria um bom governo. Ledo engano de muitos que acabaram votando nele para derrotar o sectário Marcelo Freixo e seu (à época) PSOL.
Não se trata de questionar a fé de Crivella ou de seus eleitores. Trata-se de cobrar resultados de alguém que já foi senador, ministro, prefeito e deputado federal. Depois de tantas oportunidades, o eleitor tem todo o direito de perguntar o que essa trajetória entregou ao estado. E não entregou praticamente coisa alguma.
Um novo mandato no Senado dura oito anos. Antes de conceder esse tempo a Marcelo Crivella, vale lembrar os quatro em que ele comandou a prefeitura, assim como todos os outros em que foi peso morto em diversos cargos. Será que o Rio merece fazer essa aposta de novo?