Início Religião Festa que já tomou as ruas do Centro volta a reunir o comércio do Rio...

COMÉRCIO EM FESTA

Festa que já tomou as ruas do Centro volta a reunir o comércio do Rio aos pés de Nossa Senhora da Lapa

Promovida pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, solenidade acontece na histórica Irmandade dos comerciantes nesta terça-feira (8/9), às 12h15, com Missa presidida pelo bispo Dom Jeremias Antonio de Jesus, grande coral e orquestra e representantes das principais entidades do comércio carioca

A majestosa nave da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores - Foto: Daniel Martins, Diário do Rio

Durante cerca de dois séculos, quando chegava o dia 8 de setembro, o coração comercial do Rio sabia que era dia de festa. A Rua do Ouvidor se enfeitava, arcos monumentais eram erguidos, coretos ocupavam as ruas, bandas tocavam, fogos iluminavam o Centro e comerciantes e empregados se reuniam para celebrar Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Era — e volta a ser — uma das grandes tradições do comércio carioca.

Na próxima terça-feira, 8 de setembro, essa história ganhará mais um capítulo. Às 12h15, a histórica Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na Rua do Ouvidor, receberá a Missa Solene da Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, presidida pelo bispo Dom Jeremias Antonio de Jesus.

A Festa é promovida pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, associação devocional que atua na preservação e difusão da devoção à padroeira dos comerciantes do Rio, e acontece na secular Irmandade, fundada em 1743 por homens do comércio e há quase três séculos ligada à vida mercantil do Rio de Janeiro.

A Missa será concelebrada pelos padres Victor Hugo Nascimento e Vitor Pimentel Pereira, que servem na Irmandade todos os finais de semana, nas lotadas celebrações solenes acompanhadas de música sacra. São esperados representantes do comércio do Centro e de entidades como SindilojasRio, Fecomércio RJ, Associação Comercial do Rio de Janeiro e Sebrae, além de outras instituições ligadas à atividade comercial.

Grande coral e orquestra e o “Mater Mercatorum”

A música será uma das protagonistas da solenidade. Grande coral e orquestra, sob a direção da cantora e maestrina Juliana Sucupira, com sua equipe do Coral Astorga, acompanharão a Missa, recuperando a importância que a música sempre teve nas grandes celebrações da Irmandade.

Entre os pontos altos estará a execução do “Mater Mercatorum”, hino dedicado a Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores cujo título latino significa “Mãe dos Mercadores”.

Não se trata de um cântico discreto. Com caráter quase de marcha triunfal, o Mater Mercatorum cresce em intensidade até alcançar uma sonoridade apoteótica de veneração a Nossa Senhora da Lapa. Executado por grande formação coral e orquestral, expressa musicalmente aquilo que a própria Festa representa: a homenagem solene dos mercadores à sua Mãe e padroeira.

No dia 8, sua execução ganhará significado especial. Diante da imagem de Nossa Senhora e com representantes do comércio carioca reunidos na igreja, o Mater Mercatorum voltará a soar como uma proclamação musical da ligação secular entre a Lapa e aqueles que fazem o comércio do Rio.

Uma Irmandade nascida do comércio

A relação entre Nossa Senhora da Lapa e os comerciantes cariocas não é uma associação criada recentemente para a Festa. Está na própria origem da instituição.

A Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores foi fundada em 1743 por comerciantes e estabeleceu sua igreja no coração da área mercantil da cidade. A poucos passos estão a Rua do Ouvidor, a antiga Rua Direita — atual Primeiro de Março —, a Praça XV, o Arco do Teles e a Travessa do Comércio.

Foi dessa comunidade, iniciada em dois pequenos oratórios de rua,  que nasceu uma celebração que acabaria extrapolando as portas do templo.

Com o passar das décadas, o 8 de setembro ganhou as ruas. Continuou sendo uma solenidade religiosa da Irmandade, mas tornou-se também por mais de um século uma grande manifestação pública da identidade do comércio carioca. As pesquisas históricas publicadas pelo DIÁRIO DO RIO revelaram a dimensão alcançada pela Festa.

Em 1900, diferentes trechos do Centro tinham suas próprias comissões de ornamentação. Rua do Ouvidor, Primeiro de Março, Rua do Mercado, Praça XV e Travessa do Comércio receberam bandeiras, folhagens e iluminação. Houve arco triunfal, fogos, balões e bandas militares e navais.

Na estreita Travessa do Comércio, erguia-se um extraordinário coreto suspenso sobre pilares: os músicos se apresentavam acima da rua enquanto a multidão continuava circulando por baixo, e no entorno havia uma grande quermesse.

Dentro da igreja, altares iluminados, flores, incenso, prataria, grande coro e orquestra davam à solenidade religiosa uma dimensão igualmente monumental. Um jornalista da época descreveu a multidão à noite como pessoas que “formigavam nas ruas”.

A Festa pertence ao comércio do Rio e a Irmandade é sua casa histórica.

O que desapareceu ao longo do século XX foi a dimensão pública que a celebração havia alcançado. Em 2023, após a restauração e reabertura da igreja, a nova administração da Irmandade iniciou a retomada da antiga tradição, com o apoio da Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.

Desde então, a Festa voltou a crescer. Em sua configuração atual, é promovida pela Venerável Liga e celebrada na Irmandade, reunindo novamente comerciantes, empresários, trabalhadores e instituições representativas do setor em torno de Nossa Senhora da Lapa. Começa com a tradicional novena dos comerciantes, todo dia 30 de agosto, e encerra-se no dia da padroeira.

O reconhecimento ultrapassou as paredes da igreja. Desde 2024, 8 de setembro integra oficialmente o calendário do Município do Rio como Dia de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.

Um ano extraordinário para o patrimônio da Irmandade

A Festa de 2026 acontece ainda em um momento excepcional para a Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.

Depois de décadas durante as quais parte importante de seu patrimônio sacro parecia definitivamente perdida, peças começam a reaparecer.

No Brasil, duas importantes peças de prata desaparecidas do acervo foram recuperadas neste ano. Elas se somaram a outras obras que a atual administração já conseguiu trazer de volta à igreja.

Mas a descoberta mais impressionante ocorreu do outro lado do Atlântico.

Quatro dos seis monumentais tocheiros de prata que pertencem ao acervo da Irmandade já foram identificados em Portugal. Também foi localizada no país a monumental cruz de banqueta de prata da igreja, com mais de 2,10 metros de altura.

São cinco peças excepcionais de um dos grandes conjuntos históricos de prata litúrgica da Lapa dos Mercadores.

E pode haver mais.

Diante da possibilidade de que outros objetos desaparecidos da Irmandade também estejam entre os bens sob investigação em Portugal, a Polícia Judiciária portuguesa solicitou à instituição documentação e o inventário de seu patrimônio desaparecido.

A Irmandade encaminhou às autoridades portuguesas um amplo dossiê reunindo fotografias históricas, registros administrativos, imagens das peças remanescentes e recuperadas e a documentação do IPHAN relativa ao tombamento da igreja e de seu acervo.

Há elementos que funcionam quase como impressões digitais da antiga prataria. Parte importante do conjunto foi executada pelo ourives José de Oliveira Coutinho, cuja punção JOC aparece nas peças, ao lado do tradicional monograma AM coroado da Irmandade. Rosas, folhas e flores inspiradas na própria talha da igreja completam uma linguagem ornamental que ajuda a identificar objetos separados de seu conjunto há décadas.

A imagem perdida que ganhou uma reprodução

Quando os comerciantes se reunirem para a Missa deste ano, haverá diante deles outro símbolo da reconstrução promovida nos últimos anos.

A imagem de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores atualmente venerada na igreja reproduz a histórica imagem do século XVIII furtada e desaparecida do acervo da Irmandade há mais de três décadas.

A reprodução foi encomendada pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores ao artista Carlos Calsavara, de São João del-Rei. Executada segundo técnicas tradicionais de escultura e douramento a ouro 24 quilates, procurou recuperar os traços, as vestes e até o olhar da antiga representação de Nossa Senhora.

Em 1º de setembro de 2025, a nova imagem recebeu solenemente a bênção do Cardeal Dom Orani João Tempesta, durante a abertura da Semana da Padroeira na própria Irmandade.

A reprodução não substitui historicamente a obra desaparecida, que continua sendo procurada. Mas devolveu à devoção dos fiéis a representação de Nossa Senhora da Lapa que durante gerações esteve ligada aos comerciantes cariocas.

Poucas Festas recentes, portanto, reuniram tantos sinais de reencontro com essa história quanto a de 2026.

A Irmandade recupera seu patrimônio. A Venerável Liga promove novamente a grande Festa. A imagem histórica ganhou uma reprodução fiel. Cinco peças monumentais já foram identificadas em Portugal. O comércio organizado volta à Rua do Ouvidor. E a música que nasce dessa devoção será executada por grande coral e orquestra.

Na terça-feira, quando as vozes conduzidas por Juliana Sucupira e pela equipe do Coral Astorga preencherem a pequena nave e o Mater Mercatorum proclamar musicalmente Nossa Senhora como Mãe dos Mercadores, não estará sendo encenada uma lembrança de um Rio que desapareceu.

É a Festa dos comerciantes do Rio acontecendo novamente em sua casa histórica, aos pés de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.

SERVIÇO

Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores — Padroeira dos Comerciantes

Data: terça-feira, 8 de setembro de 2026
Horário: 12h15
Celebrante: Dom Jeremias Antonio de Jesus
Concelebrantes: Pe. Victor Hugo Nascimento e Pe. Vitor Pimentel Pereira
Música: grande coral e orquestra, sob a direção de Juliana Sucupira e equipe do Coral Astorga, com execução do hino Mater Mercatorum
Promoção: Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Local: Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Endereço: Rua do Ouvidor, 35 — Centro — Rio de Janeiro

Bruna Castro
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.