Representantes da Fecomércio RJ, do SindilojasRio, do CDLRio e da Associação Comercial participaram da festa de Nossa Senhora da Lapa ao lado de empresários da gastronomia, antigos lojistas e dirigentes de irmandades. Encontro na Rua do Ouvidor reforçou a ligação entre a tradição dos mercadores e a vida do Centro
Antigos lojistas, empresários da gastronomia, dirigentes de entidades comerciais e representantes de instituições históricas se encontraram nesta terça-feira, 8 de setembro, na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na Rua do Ouvidor. A festa da padroeira dos comerciantes cariocas reuniu diferentes gerações de quem fez — e continua fazendo — a vida econômica do Centro, numa homenagem em que a devoção a Nossa Senhora se entrelaçou com a memória e a identidade do comércio do Rio. A Missa Solene foi celebrada pelo bispo Dom Jeremias de Jesus, com coral e grande orquestra.
Entre os presentes estavam representantes da Fecomércio RJ, Aldo Gonçalves, presidente do SindilojasRio e do CDLRio, e Ruy Barreto Filho, presidente do Conselho Superior da Associação Comercial do Rio de Janeiro — ACRJ. A Associação Comercial também esteve representada por Raphael Barreto, integrante de seu quadro de beneméritos. A presença das entidades deu expressão institucional a uma festa cuja razão de existir está ligada aos homens e mulheres do comércio.
Essa participação, porém, não ficou restrita aos dirigentes empresariais. Compareceram Renan Ferreira, proprietário do bar e restaurante Capitu, e Raphael Vidal, à frente do Bafo da Prainha e de diversos outros estabelecimentos no Centro. Também estiveram presentes os antigos proprietários da Perfumaria Carneiro, trazendo à celebração a representação de uma geração anterior do comércio carioca.
A reunião dessas trajetórias foi um dos aspectos mais expressivos da festa. De um lado, a memória das antigas casas comerciais e de seus balcões; de outro, empresários que encontram na gastronomia uma maneira de atrair público e dar novos usos à região. Diante da padroeira, essa diferença de épocas e atividades não separava os participantes: ajudava a mostrar a abrangência de uma tradição que continua capaz de reunir o comércio em torno de uma referência comum.
Para o Centro, encontros assim têm um significado que ultrapassa a presença das entidades numa mesma solenidade. Uma região comercial também se constitui por relações de vizinhança, costumes compartilhados e vínculos entre seus frequentadores. A festa oferece uma ocasião para que essas relações apareçam, aproximando quem preserva a lembrança das antigas lojas de quem abre, administra e sustenta os negócios de hoje.
É justamente nessa convivência que a Lapa dos Mercadores conserva sua particularidade. A homenagem a Nossa Senhora não está desligada do cotidiano das ruas ao redor. Ela reúne pessoas cujas histórias passam por essas ruas, por seus estabelecimentos e pelas transformações de uma área que continua procurando caminhos para fortalecer sua atividade econômica e sua vida comunitária.
Irmandades e instituições históricas no mesmo encontro
A participação de representantes das irmandades cariocas ampliou essa reunião entre instituições ligadas à história da cidade. A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro esteve representada por José Guilherme Ferreira Lobato de Souza, chefe de gabinete do provedor Francisco Horta.
Também compareceram Matheus Campelo, comissário da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, e Frei Ramon Assis, comissário-provedor da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte.
Esteve presente ainda João José do Nascimento Souza, provedor da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. O dirigente foi eleito provedor e juiz de Nossa Senhora do Rosário na eleição da instituição realizada em março de 2025. Francisco Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura, também participou da festa. Sua presença acrescentou ao encontro a representação da instituição cultural, ao lado das entidades empresariais e religiosas.
Não era, portanto, uma reunião composta apenas por convidados de um mesmo setor. Na pequena igreja da Rua do Ouvidor, o comércio encontrou representantes de irmandades, da Misericórdia e da cultura, numa aproximação entre instituições que têm no Centro um território comum de atuação e memória. A festa da padroeira ofereceu o motivo religioso para esse encontro e, ao mesmo tempo, tornou visível a disposição de manter esses vínculos.
Quando os comerciantes faziam a festa nas ruas
A dimensão comercial da celebração não é uma interpretação recente. As pesquisas históricas publicadas pelo DIÁRIO DO RIO mostram que a festa de Nossa Senhora da Lapa mobilizava os próprios estabelecimentos da região, com participação de proprietários e empregados na organização dos festejos. Em 1900, comissões de diferentes ruas cuidaram da ornamentação, da iluminação e da programação que transformou os arredores da igreja.
Rua do Ouvidor, Primeiro de Março, Rua do Mercado, Praça XV e Travessa do Comércio receberam bandeiras, folhagens, luzes e estruturas montadas para a ocasião. Houve arco triunfal e apresentações de bandas militares e navais. Na estreita Travessa do Comércio, um coreto suspenso permitia que os músicos tocassem acima da passagem dos participantes. O comércio não era apenas convidado para assistir: organizava e sustentava a festa.
Essa lembrança ajuda a compreender a importância da reunião desta terça-feira. A presença dos dirigentes lojistas, dos empresários de restaurantes e dos antigos comerciantes retoma, nas condições atuais, o vínculo que deu à celebração sua identidade. Não é necessário reproduzir integralmente os festejos de outro século para reconhecer essa continuidade: ela está também nas pessoas que voltam à igreja e na participação das instituições que representam o setor.
A retomada contemporânea da festa começou em 2023, depois da restauração e reabertura do templo, por iniciativa da nova administração da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, com apoio da Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Na configuração atual, a Liga promove a celebração na histórica Irmandade, devolvendo à homenagem à padroeira um lugar de encontro para o comércio carioca.
O reconhecimento dessa ligação também chegou à legislação municipal. A Lei nº 8.628/2024 incluiu no Calendário Oficial da Cidade o Dia de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, padroeira dos comerciantes no Rio de Janeiro, celebrado anualmente em 8 de setembro.
Uma tradição viva para o Centro
A identidade religiosa permaneceu no centro da homenagem. Além da Missa com coral e grande orquestra, houve ladainha cantada em latim e execução do hino Mater Mercatorum. O título, que significa Mãe dos Mercadores, expressa a devoção que dá unidade à festa: a homenagem dos comerciantes à sua padroeira.
A celebração contou também com o apoio da Sérgio Castro Imóveis, do Diário e do shopping Paço do Ouvidor, reunindo a participação de empresas e instituições ligadas ao cotidiano da região.
Para um Centro que precisa tanto preservar seus edifícios quanto fortalecer a vida que acontece entre eles, recuperar uma festa dessa natureza tem valor próprio. A restauração permite conservar a igreja; a presença dos comerciantes, dos devotos e das instituições devolve a ela encontros e relações. O patrimônio deixa de ser apenas algo a contemplar e volta a participar da experiência cotidiana da cidade.
Foi esse reencontro que marcou o 8 de setembro na Rua do Ouvidor. Os antigos proprietários da Perfumaria Carneiro, os empresários dos bares e restaurantes e os representantes das entidades comerciais levaram à Lapa trajetórias diferentes, mas ligadas ao mesmo Centro. Aos pés de Nossa Senhora, o comércio carioca celebrou sua padroeira e renovou uma tradição que também lhe pertence.