Um paciente de 64 anos com câncer no reto está, segundo a família, sem acesso ao medicamento previsto para uma etapa importante do tratamento no Hospital Municipal Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. O caso ganhou outro contorno quando os familiares procuraram a Ouvidoria da Secretaria de Estado de Saúde para reclamar da situação e tentar viabilizar uma transferência para o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A resposta recebida, porém, não tratou do problema oncológico: o documento menciona atendimento em emergência odontológica.
Carlos Alberto Nunes foi diagnosticado com adenocarcinoma de reto inferior, em estágio clínico cT3a, sem evidências de doença metastática à distância nos exames mencionados no relatório médico. O documento emitido pelo próprio Hospital Cardoso Fontes indica tratamento oncológico neoadjuvante com quimiorradioterapia, com uso de capecitabina concomitante à radioterapia.
O relatório ainda registra que o serviço onde o paciente estava em acompanhamento não dispunha de capecitabina para fornecimento ou administração naquele momento, apontando que isso impossibilitava a realização adequada do tratamento proposto na unidade. O médico também solicita transferência ou encaminhamento prioritário para um serviço de oncologia clínica e radioterapia e ressalta a importância da continuidade do cuidado.
Medicamento faz parte da quimiorradioterapia
A capecitabina é uma quimioterapia oral da família das fluoropirimidinas. No tratamento do câncer de reto, ela pode ser administrada junto com a radioterapia, compondo a chamada quimiorradioterapia neoadjuvante. O próprio protocolo do INCA prevê a capecitabina nos dias de radioterapia para pacientes com adenocarcinoma de reto que tenham indicação desse tratamento.
A combinação não significa apenas que o paciente recebe dois tratamentos independentes. A quimioterapia faz parte da estratégia utilizada junto à radiação para o controle do tumor antes da cirurgia. Por isso, quando um medicamento previsto para essa etapa não está disponível, o cronograma planejado pode ser comprometido.
Isso não significa, por si só, que o tumor necessariamente irá progredir ou que o tratamento perdeu sua eficácia. O impacto de um eventual atraso ou mudança de protocolo precisa ser avaliado pela equipe responsável. O problema apontado pela família é que o paciente não consegue seguir o tratamento exatamente como prescrito no relatório médico.
Família afirma que hospital substituiu medicamento
Segundo Yasmin Pereira da Silva, neta de Carlos, a família foi informada em 21 de agosto de que a capecitabina estava em falta no Cardoso Fontes e que não havia previsão para a chegada do medicamento.
Antes disso, em 3 de agosto, o paciente havia recebido quimioterapia intravenosa no hospital e iniciado o uso da capecitabina em casa, segundo a família.
Com a falta do medicamento, Yasmin afirma que o hospital adotou outra estratégia. Em 25 de agosto, Carlos teve um cateter colocado e, no dia seguinte, recebeu quimioterapia intravenosa com outro medicamento.
A família considera que essa troca foi uma alternativa adotada diante da ausência da capecitabina, e não o esquema inicialmente previsto no relatório. A preocupação dos familiares é que a mudança não permita que o paciente avance para a etapa de radioterapia conforme o planejamento original.
A primeira consulta para radioterapia está marcada para 10 de setembro. Carlos também tem consulta com a oncologia no dia 11 e nova sessão de quimioterapia pelo cateter prevista para 14 de setembro.
Médico solicita transferência para o INCA
Diante da situação, segundo Yasmin, um médico do Cardoso Fontes entregou à família um relatório solicitando a transferência ou encaminhamento do paciente para outro serviço de oncologia, com a família buscando o INCA como alternativa.
A partir daí, os familiares dizem ter encontrado dificuldades para saber qual unidade deveria dar andamento ao pedido.
Segundo o relato da família, o Cardoso Fontes orientou que o documento fosse levado à Clínica da Família Recanto do Trovador. Na unidade, entretanto, os familiares teriam sido informados de que a transferência deveria ser solicitada pelo próprio hospital.
Ao voltar ao Cardoso Fontes, a família recebeu novamente a orientação de procurar a clínica, desta vez com a informação de que o encaminhamento deveria ocorrer pelo SER, e não pelo SISREG.
Sem conseguir solucionar o impasse, os familiares procuraram a Ouvidoria da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e registraram uma manifestação sob o protocolo 202620001358706.
Ouvidoria responde sobre emergência odontológica
Foi na resposta da Ouvidoria que a família se deparou com outra situação.
O documento recebido não menciona a falta da capecitabina, a continuidade do tratamento contra o câncer ou o pedido de transferência. Em vez disso, informa que o paciente teria sido atendido inicialmente pela “Emergência Odontológica”.
A resposta afirma ainda que, posteriormente, ele teria recebido encaminhamento pelo SISREG e passado pelo primeiro atendimento ambulatorial em 10 de agosto, com uma médica, ocasião em que teriam sido solicitados exames pré-operatórios.
A manifestação, portanto, não esclarece os principais pontos que levaram a família a procurar a Ouvidoria: a indisponibilidade do medicamento, a alteração do tratamento, o risco de atraso na quimiorradioterapia e o pedido de encaminhamento para outro serviço especializado.
A situação chama ainda mais atenção porque o relatório médico do próprio Cardoso Fontes, datado de 21 de agosto, registra expressamente que o serviço não dispunha da capecitabina e solicita encaminhamento prioritário para oncologia clínica e radioterapia.
Família teme atraso no tratamento
Segundo Yasmin, o avô está abatido e emocionalmente abalado com a situação. Além do diagnóstico, a família teme que a dificuldade para obter o medicamento provoque novos atrasos no tratamento.
A preocupação não é apenas com a obtenção dos comprimidos. Como a capecitabina está prevista no relatório como parte da quimiorradioterapia, a falta do medicamento interfere diretamente no planejamento que havia sido estabelecido para essa etapa. O protocolo do INCA também prevê a administração da capecitabina durante os dias de radioterapia no tratamento neoadjuvante do câncer de reto.
A família busca agora uma solução antes da consulta de radioterapia marcada para 10 de setembro: conseguir o medicamento no Cardoso Fontes para que o tratamento previsto possa prosseguir ou viabilizar a transferência para um serviço especializado, como o INCA.
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio foi procurada pelo DIÁRIO DO RIO. A pasta entrou em contato com a reportagem e informou que está apurando o caso. Até a publicação, porém, a secretaria não havia apresentado uma resposta conclusiva sobre a disponibilidade da capecitabina, a razão da substituição do medicamento, a continuidade do tratamento ou o pedido de transferência.
A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) também foi procurada pelo Diário do Rio para esclarecer a resposta emitida pela Ouvidoria no protocolo 202620001358706. A pasta foi questionada sobre o possível equívoco na resposta e sobre a apuração da manifestação.
O espaço permanece aberto para manifestação da SMS, SES-RJ e do Hospital Municipal Cardoso Fontes.
ATUALIZAÇÃO 19:49
Procurada pelo DIÁRIO DO RIO, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) informou às 19:10 que a manifestação foi encaminhada à Ouvidoria da Secretaria Municipal de Saúde do Rio, responsável pela unidade onde o paciente é atendido. Com isso, a pasta estadual atribuiu à rede municipal a apuração da reclamação e os esclarecimentos sobre o atendimento no Hospital Municipal Cardoso Fontes.
Em nota às 19:01, a Secretaria Municipal de Saúde informou que o caso de Carlos Alberto foi discutido pela coordenação e pela equipe de oncologia do Hospital Cardoso Fontes, que consideraram mais indicado substituir o medicamento de quimioterapia que vinha sendo utilizado por outro, em uma decisão médica baseada no quadro e no perfil clínico do paciente.
A pasta, no entanto, não esclareceu se houve falta de capecitabina na unidade, como relatado pela família, nem informou se o medicamento chegou a estar indisponível ou se a substituição ocorreu exclusivamente por indicação médica. A SMS afirmou ainda que uma nova consulta será agendada na próxima semana para esclarecer as dúvidas do paciente e da família. Segundo a pasta, Carlos Alberto também realiza sessões de radioterapia no Hospital do Andaraí, com nova consulta marcada para a próxima quinta-feira (10).