Uma fortuna em criptomoedas ligada a uma empresa criada em Cabo Frio, na Região dos Lagos, pode estar guardada em um dispositivo sob custódia da Polícia Federal. O equipamento, semelhante a um pen drive, faz parte do patrimônio digital relacionado à G.A.S. Consultoria, empresa fundada por Glaidson Acácio dos Santos, o “Faraó dos Bitcoins”, que se tornou conhecido no Rio e em todo o país por oferecer aos investidores a promessa de rendimento de 10% ao mês. O mistério agora é descobrir quanto dinheiro está armazenado na carteira e, principalmente, qual é a senha necessária para movimentar os ativos.
Segundo as investigações da Operação Kryptos, a rede de investimentos ligada à G.A.S. movimentou mais de R$ 38 bilhões. A empresa tinha sua origem em Cabo Frio e atraiu milhares de investidores com a promessa de ganhos mensais por meio de operações com criptomoedas.
Em depoimento à Justiça Federal, Glaidson afirmou que existe uma quantia expressiva na carteira digital e disse que o valor seria suficiente para quitar todos os credores da empresa. A declaração, porém, não foi acompanhada de uma indicação sobre o montante efetivamente armazenado no dispositivo.
Carteira está em cofre da PF
O dispositivo apreendido pelas autoridades é uma chamada cold wallet, ou carteira fria, utilizada para armazenar informações de acesso a criptomoedas sem conexão permanente com a internet.
Os ativos não ficam fisicamente dentro do equipamento. A carteira guarda informações que permitem chegar às chamadas chaves privadas, utilizadas para controlar e movimentar as criptomoedas. Para acessar esses recursos, é necessário possuir as senhas correspondentes.
No caso da G.A.S., a localização do dispositivo não resolveu o problema. A carteira está sob custódia da Polícia Federal, mas o acesso aos ativos continua dependendo das informações necessárias para desbloqueá-la.
Durante seu interrogatório, Glaidson foi questionado se havia uma grande quantidade de dinheiro na carteira. “Existe”, respondeu.
Na sequência, a Justiça perguntou se os recursos seriam suficientes para pagar todos os credores da G.A.S. “Dá, dá”, afirmou. O empresário, no entanto, não informou o valor exato da fortuna.
Em outro momento do depoimento, Glaidson afirmou: “A senha agora de cabeça eu não sei, mas tá lá. Tá tudo lá”, disse.
A declaração transformou a senha em uma das principais incógnitas do caso. Mesmo com o dispositivo em poder da PF, sem as chaves privadas não é possível garantir o acesso aos criptoativos.
Fortuna está ligada a empresa criada em Cabo Frio
A G.A.S. Consultoria foi fundada por Glaidson em Cabo Frio, na Região dos Lagos. A empresa ganhou projeção ao captar recursos de investidores sob a promessa de retorno de 10% ao mês. O negócio cresceu rapidamente e passou a movimentar valores bilionários. Segundo a investigação da Operação Kryptos, mais de R$ 38 bilhões circularam pelo esquema.
A dimensão da operação fez com que o caso se tornasse um dos maiores envolvendo investimentos em criptomoedas no país, com milhares de pessoas afetadas após a interrupção dos pagamentos.
A lista de credores elaborada pelos administradores judiciais da massa falida da G.A.S. reúne mais de 77 mil pessoas e empresas. A dívida chega a quase R$ 3 bilhões. É nesse cenário que a possível existência de uma grande quantidade de criptomoedas ganha importância para os investidores que ainda aguardam a recuperação de seus recursos.
Mais de R$ 1 bilhão em bitcoins também é investigado
Além da carteira mantida no cofre da PF, outro episódio envolvendo criptomoedas está no centro da investigação. Segundo o Ministério Público Federal, 4.500 bitcoins deixaram uma conta em 2021, ano em que Glaidson foi preso. Na época, os ativos correspondiam a mais de R$ 1 bilhão.
Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, mulher e sócia formal de Glaidson, estava nos Estados Unidos naquele período. De acordo com o MPF, a investigação identificou acesso a um computador em Kissimmee, na Flórida, cidade onde ela se encontrava.
A movimentação passou a ser investigada pelas autoridades como parte do rastreamento do patrimônio da G.A.S. A defesa de Mirelis, entretanto, afirma que ela não se apropriou dos recursos. Segundo os advogados, depois da prisão de Glaidson, ela foi orientada pela defesa da empresa a adotar as medidas necessárias para continuar os pagamentos aos clientes.
Os advogados sustentam que os bitcoins existentes nas carteiras da G.A.S. foram movimentados para devolver aos próprios investidores os valores que lhes pertenciam e manter a remuneração de 10% que vinha sendo paga. A defesa nega ainda que Mirelis tenha “sacado” ou ficado com R$ 1 bilhão.
‘Faraó’ diz que obrigava esposa a operar criptomoedas
Os depoimentos prestados no processo também trouxeram novas informações sobre a relação de Glaidson com Mirelis e a atuação dela nos negócios da empresa criada em Cabo Frio.
Glaidson afirmou à Justiça que obrigava a mulher a operar recursos dos clientes no mercado de criptomoedas. Segundo ele, Mirelis inicialmente não queria realizar operações para terceiros, mas teria sido pressionada por ele.
“Ela não fazia a princípio, no começo, para terceiros. Não queria fazer. Mas ela era obrigada a fazer por mim, por chantagem emocional”, declarou.
O empresário também afirmou que obrigava Mirelis a assinar notas promissórias relacionadas aos contratos de investimento da G.A.S. “Assinava debaixo de coação, tortura psicológica e cárcere privado”, disse.
As notas promissórias eram emitidas pela G.A.S. e assinadas por Mirelis para garantir a devolução do capital inicialmente investido pelos clientes ao final dos contratos. Questionado sobre como poderia exercer pressão sobre a mulher depois de sua prisão, Glaidson afirmou que a violência psicológica já acontecia antes de ele ser detido.
Segundo ele, havia ameaças de mandá-la de volta para a Venezuela, pedir o divórcio e situações de coação dentro de casa. Durante o depoimento, o empresário reconheceu os atos e afirmou que considerava lamentável o que havia feito.
Mirelis diz que era pressionada
Mirelis confirmou à Justiça que era obrigada pelo marido a figurar como avalista das notas promissórias da G.A.S. Segundo ela, Glaidson dizia que precisava assumir a função porque a empresa havia sido criada e porque ela era especialista em criptomoedas. A venezuelana afirmou que não tinha liberdade para discordar das decisões tomadas dentro de casa ou na empresa.
“Não havia uma opção de eu falar ‘não’ para ele. Sempre ‘tem que fazer’”, relatou.
Questionada se se sentia pressionada, Mirelis respondeu que havia pressão e afirmou que não concordava com muitas das decisões. Ela também contou que começou assinando documentos à mão e, posteriormente, autorizou o uso de sua assinatura em sistemas automatizados.
Apesar de constar formalmente como sócia da G.A.S., Glaidson e Mirelis afirmaram que ela não tinha ingerência na administração da empresa. Segundo os depoimentos, sua função estava relacionada principalmente às operações com criptomoedas usadas para honrar os contratos que prometiam rendimento mensal de 10%.
Investidor do Rio vendeu bens para aplicar mais de R$ 500 mil
O impacto do colapso da G.A.S. atingiu milhares de investidores. Entre eles está um homem que preferiu não se identificar e que contou ter vendido carro e moto, além de contratar empréstimos, para investir mais de R$ 500 mil na empresa. Segundo ele, a decisão foi tomada porque conhecia pessoas que recebiam os pagamentos prometidos e, por isso, acreditava que o negócio funcionava.
Com a interrupção das atividades da G.A.S., investidores ficaram sem receber os valores esperados e passaram a depender do processo de recuperação dos recursos. A lista de credores reúne mais de 77 mil pessoas e empresas, enquanto a dívida estimada chega a quase R$ 3 bilhões.
MPF pede condenação de Glaidson, Mirelis e outros 15
Nas alegações finais do processo, o Ministério Público Federal pediu a condenação de Glaidson, Mirelis e outras 15 pessoas acusadas de integrar o grupo. Entre os crimes apontados estão organização criminosa e delitos contra o sistema financeiro nacional, como oferta irregular de valores mobiliários, operação de instituição financeira sem autorização e gestão fraudulenta.
Glaidson está preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Segundo a acusação, os envolvidos podem receber penas superiores a 37 anos de prisão.
A defesa de Glaidson afirma que ele é inocente e sustenta que as atividades da G.A.S. não configuravam crimes contra o sistema financeiro. Os advogados também contestam a lista de credores e afirmam que a interrupção dos pagamentos ocorreu em cumprimento a uma ordem judicial.
Já a defesa de Mirelis afirma que ela não integrava a estrutura administrativa da G.A.S. e que sua condição de sócia era apenas formal, por ser esposa de Glaidson. Os advogados também sustentam que os bitcoins movimentados após a prisão do empresário tinham como objetivo devolver os valores aos clientes e negam que Mirelis tenha se apropriado dos recursos.
Enquanto a Justiça tenta esclarecer o funcionamento do esquema e o destino do patrimônio da G.A.S., a possível fortuna em criptomoedas permanece como um dos principais pontos do caso. O dispositivo está sob custódia da Polícia Federal, mas o valor armazenado ainda não foi informado oficialmente.
A resposta pode estar em uma senha que Glaidson diz não lembrar. Para os mais de 77 mil credores, descobrir o que está na carteira e conseguir acessar os ativos pode representar a diferença entre continuar esperando e finalmente recuperar parte do dinheiro perdido no esquema que começou em Cabo Frio e movimentou bilhões de reais.